Qatsi - My life out of balance

Pensamentos... Silêncios... Gritos surdos de uma vida que clama por outra forma de ser vivida.





Maíra Bueno, 20 anos, BH/MG, sexto período de Jornalismo. Gosto de ler, escrever, conversar, pensar, calar. E de torcer pro Cruzeiro. E de tomar café expresso e água com gás. E de ouvir os Beatles também.



Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
(Chico e Gil)




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Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

A Humanidade é Vermelha: Fraternidade e sensibilidade em Kieslowski - MBM

A Fraternidade é Vermelha (Rouge) é o fim da Trilogia das Cores, do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, e também o último trabalho por ele realizado. A trilogia tem o propósito de narrar, imageticamente, os ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade, alinhados com as cores da bandeira da França. Ainda que os três filmes possuam fábulas autônomas, é em Rouge que a trilogia pode ser vista em uma unidade, obrigando o espectador a repensar A Liberdade é Azul (Bleu) e A Igualdade é Branca (Blanc).

Rouge é um filme pontuado pelas coincidências e pelo acaso, narrando a estranha amizade nascida entre a modelo Valentine e o juiz aposentado Joseph. A moça atropela a cadela de Joseph, Rita, e vai até sua casa para devolver o animal. Por causa de Rita, Valentine e o juiz ficam amigos, e a modelo descobre que o juiz gasta todo o seu tempo escutando conversas telefônicas de seus vizinhos, ¿em busca da verdade¿, que ele acredita nunca ter conseguido alcançar nos tribunais. Paralelamente, é narrada a história de um jovem juiz, Auguste, e sua namorada, Karin. Auguste passa, ao longo do filme, por situações idênticas às vividas por Joseph durante sua juventude, contadas por ele próprio a Valentine.

Cada personagem tem sua função específica no filme: Joseph é o passado repleto de erros, o presente amargurado e a falta de perspectiva para o futuro; Auguste representa a coexistência do passado e do presente de Joseph, mas com a possibilidade de criar um futuro diferente; Karin é a representação de um dos elementos que tornaram Joseph o que é; e Valentine surge como a variável da história, a única coisa capaz de diferenciar o passado de Joseph do futuro de Auguste.
Ao longo do filme, os personagens ficam quase sempre próximos, por obra do acaso. Ainda assim eles não se encontram, deixando o espectador, de certa forma, angustiado com essa relação incompleta e misteriosa. Na verdade, a única pessoa que tem consciência do passado, do presente e de suas semelhanças é o ex-juiz Joseph que, partindo disso, é como um narrador do filme. E, nessa condição, capaz de moldar o destino daqueles que estão à sua volta ¿ ou pelo menos é ele quem induz o espectador a tirar determinadas conclusões sobre as três outras personagens.

Kieslowski cria, em Rouge, uma relação de cumplicidade com o espectador. Nenhuma das personagens possui todas as informações que o espectador tem, de forma que este monta uma colcha de retalhos com tudo que é mostrado no filme, seja através das palavras, seja através das imagens. O papel do espectador é fundamental em Rouge, ouso dizer que até mais do que em Bleu e Blanc, pois é ele, com o auxílio de Joseph, que dá sentido à história e é capaz de unir a vida daquelas quatro pessoas. Assim, o discurso de Kieslowski não é fechado. Pelo contrário, permite que os diversos espectadores façam diferentes leituras diante do filme, moldando até mesmo a história ¿ e o seu desfecho ¿ de acordo com o que pensa ou com o que sentiu. Essa cumplicidade com o espectador pode não ocorrer com muita freqüência (ou com tanta eficácia) na primeira leitura, mas é quase certa em uma segunda ¿ pois é esta quem permite a visualização de elementos mais profundos na obra, tanto na história quanto na forma.

No que diz respeito ao enredo do filme, acredito não haver uma história capaz de se encaixar melhor a este título, A Fraternidade é Vermelha, do que a contada por Kieslowski. O filme é mais do que, qualquer um dos outros dois, sobre como os diversos tipos de sofrimento humano, a incompreensão e a falta de comunicação podem trazer dor e como a vida é imprevisível. A partir disso, Rouge é construído, culminando no conceito de fraternidade, como sendo a única capaz de mudar toda essa dor e esse sofrimento.

As imagens de Rouge são de uma beleza rara. Aqui, a cor do título é utilizada em momentos diferentes, ao contrário de A Liberdade é Azul (onde a cor é utilizada para mostrar a dor da personagem) e de A Igualdade é Branca (em que o branco aparece em sonhos e lembranças das personagens). Em A Fraternidade é Vermelha, a cor desvincula-se da representação da subjetividade e do drama da personagem, alternando-se de acordo com o estado de Valentine - em um determinado momento, representa a saudade, em outros desencontro, encontro e mesmo renascimento.

A música em Rouge também apresenta particularidades quando comparada aos outros filmes. Como na fotografia, a música de Bleu e de Blanc é mais utilizada para representar a subjetividade das personagens. Já em Rouge, a música aparece, principalmente, como música ambiente. A letra de Amor à primeira vista, presente no filme, é justamente sobre pessoas que nunca se viram, apesar de estarem sempre próximas.

A Trilogia das Cores, como um todo, revela a sensibilidade de Krzysztof Kieslowski quanto à fragilidade humana. No entanto, deixa transparecer o seu amor pela humanidade e sua crença nela, chegando a seu ponto máximo no desfecho, em A Fraternidade é Vermelha.

Ficha Técnica
A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge ¿ França/ Polônia/ Suíça ¿ 1994)
Duração: 99 minutos
Direção: Krzysztof Kieslowski
Produção: Marin Karmitz e Gerard Ruey
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz e Krzysztof Kieslowski
Direção de fotografia: Piotr Sobocinski
Montagem: Jacques Witta
Música: Zbigniew Preisner
Direção de som: Jean-Claude Laureux
Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Federique Feder, Jean-Pierre Lorit.


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