Qatsi - My life out of balance

Pensamentos... Silêncios... Gritos surdos de uma vida que clama por outra forma de ser vivida.





Maíra Bueno, 20 anos, BH/MG, sexto período de Jornalismo. Gosto de ler, escrever, conversar, pensar, calar. E de torcer pro Cruzeiro. E de tomar café expresso e água com gás. E de ouvir os Beatles também.



Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
(Chico e Gil)




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Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Tem alguma coisa errada com o mundo.
Claro, isso é óbvio. Mas outro dia mesmo eu estava aqui, escrevendo sobre uma (quase) inédita chuva de granizo tão forte e que quebrou tantos vidros da minha casa que parecia que eu morava em um prédio abandonado. Outro dia escrevi a um amigo que minhas mãos estavam geladas e que doía escrever. E hoje não consigo dormir por causa do calor infernal. Só me lembro de ter vivido isso em férias, tipo na praia, em Nova York ou em algum lugar do Vale do Jequitinhonha. Mas não em BH, onde os dias são agradáveis, as noites são frescas e a brisa cheira a dama-da-noite. Era assim quando eu era mais nova, e olha que nem sou tão velha. Moro em um bairro particularmente frio na cidade, desde antes de nascer. Nunca, nesses 20 anos, tinha dormido com a janela completamente aberta. Esses dias tenho dormido muito mal e não há mais nenhuma janela nem um pouco fechada que seja. E pode até soar ingênuo, ou mesmo imbecil. Mas isso me faz refletir, mais uma vez, sobre colocar ou não filhos nesse mundo que está tão maluco e tão mais errado a cada dia. E nesse momento, de uma raiva mole e quente, não há literatura nenhuma, nem a mais lírica ou suave, que me faça achar que tem alguma coisa no mundo que ainda preste. Total out of balance...

>Fale Com Ela!

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Domingo, Outubro 09, 2005

O Desaparecido
Rubem Braga

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, hoje eu não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

>Fale Com Ela!

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