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Pensamentos... Silêncios... Gritos surdos de uma vida que clama por outra forma de ser vivida.
Maíra Bueno, 23 anos (quase trinta), BH/MG, jornalista. Gosto de ler, escrever, conversar, pensar, calar. E de torcer pro Cruzeiro. E de tomar café expresso e água com gás. E de ver filmes e cuidar dos meus bichos. E de ouvir os Beatles também.
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do sonho / Senão uma grande face obscura em face da Angústia? Vinícius de Moraes
Tanto no mundo real como no mundo imaginário a vida das pessoas não pode ser passada a limpo. Que o romance siga seu destino! Os deformados também têm direito de viver. Erico Verissimo
Só foge da solidão quem tem medo dos próprios pensamentos, das próprias lembranças. Erico Verissimo
Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Wilbur Marshall Urban
O jornalista é aqule sujeito que não sabe - só sabe encontrar as pessoas que sabem. Zuenir Ventura
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Quarta-feira, Setembro 17, 2008
Há três anos vim para contar que minha casa tinha se tornado Macondo também das portas pra fora . Hoje é o Museu. Os jardins de Burle Marx branquinhos, uma coisa assim meio européia, só que com vidros de carros e de cassinos quebrados e com direito a névoa saindo das pedras de gelo. E dessa vez a única rainha a enterrar no tapete de folhas é a pobre capivara, habitante da Lagoa da Pampulha, atingida pela fúria das pedras redondas de diamante.
posted by MAÍRA BUENO at 4:49 PM
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Sábado, Agosto 30, 2008
Ela já tem os olhos brilhantes. Essa tarde, eles estavam especialmente aquosos e a maquiagem, já de muitas horas e levemente borrada, não deixava N. esconder: só quem viveu coisa semelhante poderia supor a dimensão dessa dor.
Estou com o coração partido de te ver assim. Você é muito nova, e ainda não sabe que esse é o tipo de coisa que não acontece só uma vez na vida, nem só duas, e nem só três. Não fica mais fácil com o tempo, mas a gente vai aprendendo a lidar com isso. Eu sei. Falar e lembrar só piora. Desculpa te fazer recomeçar a chorar. Mas eu queria te dizer essas coisas. Te lembrar que ele está indo atrás do sonho dele. E essa garra, essa vontade, é uma das coisas mais lindas que ele tem.
posted by MAÍRA BUENO at 9:34 PM
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Quarta-feira, Agosto 20, 2008
ATENÇÃO: percepção requer envolvimento
No meu aniversário de um ano de Museu, “comemorado” exatamente hoje, recebi uma jornalista que estava escrevendo justamente sobre bastidores de museus (leiam o Estado de Minas de domingo ou segunda-feira!). Estranha coincidência, e boa. Fui obrigada a repensar uma série de coisas que já nem me lembrava que lembrava, percebi o tanto que aprendi sobre “bastidores de museus”, o tanto (ou tão pouco) que conheço das pessoas com quem trabalho, como esse museu tem histórias interessantes, como ele acaba fazendo parte da vida da gente. E como eu gosto tão mais e “entendo” tão mais de arte agora.
Eterno caso de amor e ódio. Depois do sucesso do evento de ontem, da tranquilidade corrida do dia de hoje e de me perceber (ainda que não pela primeira vez) tão envolvida em tão pouco tempo, hoje, certamente, é um dia de amor. Amor quase desproporcional. Quase quero que essa data se repita muitas outras vezes. Até quero. Mas sei bem o tanto que a Neosaldina e o Dorflex faturam em cima desse amor todo!
P.S.: O crédito do título vai para o artista catalão Antoni Muntadas, que na palestra de ontem me fez pensar muita coisa e traduzir outras tantas.
posted by MAÍRA BUENO at 5:36 PM
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Terça-feira, Julho 22, 2008
Toda forma de amor
Pois outro dia fui ao casamento de uma parente – na verdade minha “vó-drasta”, ex esposa daquele meu avô que está vivo e nunca conheci. (Sim, somos [muito] mais próximos da ex dele do que dele mesmo.) E vocês se perguntam: se ela é vó-drasta, quantos anos tem a jovem noiva? Quase 80, meus caros, quase 80. E o noivo? De acordo com a própria, ele é “vinte anos mais novo”.
O casal se conheceu há cinco anos. Respeitada professora da UFMG, minha vó-drasta esteve em um programa de televisão falando das literaturas da vida. O rapaz – Romeu, e não resisto à tentação de citar seu nome –, encantando com as falas da moça, procurou se informar e acabou conseguindo seu email, passou a frequentar palestras e eventuais aulas da professora. Infelizmente não ouvi os pormenores de como tudo isso culminou em casamento – no meio da festa tive que ir conversar com alguém, enquanto a noiva explicava à minha mãe. O que ouvi foi que houve preconceitos – principalmente da parte dela – por causa da diferença de idade. Fato é que se resolveram.
Casaram-se na sexta-feira no civil, e sábado a recepção aconteceu no jardim da casa do filho da noiva. E foi daqueles casamentos à tarde, com noiva de chapelão e tudo, fino até doer. Trilha sonora? Bossa nova, jazz, Chico Buarque, e – por que não? - Amy Winehouse. Tudo em ótimo tom, uma festa certamente memorável. A celebração perfeita de uma nova chance que a vida dá a esse casal. Se ela tem quase 80 anos e se ele é vinte anos mais novo, quem se atreve a julgar nessa altura do campeonato? Ainda mais eu, que ultimamente ando considerando justa toda forma de amor.
posted by MAÍRA BUENO at 12:00 PM
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Segunda-feira, Julho 14, 2008
É. Não deu mesmo. O Demônio e a Srta. Prym é péssimo. Principalmente mal escrito. Mas seguirei a sugestão do colega e lerei o do Rio Piedra - que sempre me pareceu o mais cafona ever, mas pelo menos tem na biblioteca da faculdade, comprar nunca mais. A biografia, no entanto, continua valendo. Queria ter tido a aula de Jornalismo Literário na pós antes de ler a biografia. Me sinto bem mais crítica agora. Aliás, essa pós foi uma das melhores coisas que já me aconteceram e o Sérgio Vilas Boas é uma das melhores coisas que aconteceu na pós também. Já estou com saudade. Queria que ele fosse uma espécie de Leo Cunha (bizarra coincidência: como aconteceu com o Leo, eu também li um livro do Sérgio [bem] antes de saber que teria aula com ele!), pessoa com quem eu tenho contato (ir)regular e que acho que fará parte da vida pra sempre.
Agora estou lendo Na natureza selvagem, do Jon Krakauer. Sim, empolguei, foi um tal de ver o filme duas vezes no cinema em menos de uma semana, enlouquecer com a trilha (Vedderman!). Agora vou ler o artigo da revista Outside, que inspirou o livro. Andei relendo No ar rarefeito, do mesmo autor, e que também começou em um artigo (que ainda não li). Não que fosse assim tão bom, é que faz muito tempo que eu li e, enquanto Na natureza selvagem não chegava (incrível como é difícil achar certos livros em BH - e olha que me considero uma pessoa com know-how nesse aspecto) eu estava meio com sede de aventuras geladas e radicais. Mas a história de Alexander Supertramp é definitivamente melhor do que a do próprio Krakauer no topo do mundo. Estou cada vez mais alucinada com o cara. Entendo super o Vedder mais o Sean Penn. E o que eles falaram no artigo da Time. (Em inglês mas definitivamente vale a leitura. E deu tanto trabalho ficar linkando tudo, alguém trate de ler ok).
posted by MAÍRA BUENO at 12:52 PM
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Terça-feira, Junho 24, 2008
Uma chance a Paulo Coelho (?)
Ok, eu me rendo. A deliciosa (e surpreendente) leitura de "O Mago", biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais, o mago da biografia no Brasil - ao lado de Ruy Castro, é evidente - me fez ter sincera vontade de ler um livro do Sr. Coelho. Não qualquer um, mas especificamente "O Demônio e a Srta. Prym", cujo enredo me pareceu especialmente interessante, lembrou até uma possibilidade de roteiro cinematográfico. (Menciono, aqui, dado que me surpreendeu: Tarantino quis filmar "O Alquimista", mas os direitos já estavam comprados.)
Não quero parecer um daqueles críticos estúpidos que fazem a linha "não li e não gostei" e nem aqueles fãs desesperados que se acotovelam em feiras de livros e centros de convenções no Brasil, no Egito, na França ou na Austrália. Já li dois livros dele, "O Alquimista" e "Veronika Decide Morrer" e, bom, na época, há cerca de dez anos, achei vagamente interessante, apesar de não ter me aventurado em outros títulos do autor e de, anos depois, no Canadá, renegar publicamente aquele que seria o único escritor brasileiro conhecido de um dos meus mais queridos professores, Kevin (pensando bem, será que ele realmente não conhecia nenhum outro ou simplesmente não lembrou na hora? Kevin era o tipo do sujeito bem informado, um Jorge Amado pelo menos ele devia conhecer). "We don't really like him", foi o que eu disse. A que Kevin respondeu, "é, Paulo Coelho deve ser, no Brasil, algo como o que a Celine Dion é no Canadá".
A que "we" eu me referia pergunto-me agora, tendo quase terminado a leitura de "O Mago". Que eu não gosto mesmo é fato, apesar de já ter encomendado no Submarino (a custo 0, eu tinha um vale trocas) "O Demônio e a Srta. Prym". Mas alguém que vende como Paulo Coelho (100 milhões de livros, traduzidos para mais línguas do que Shakespeare, já em cena há 400 anos) mereceria, por si só, a leitura de uma biografia. Dono de uma vida tão peculiar, então, nem se fale. Biografia escrita por Fernando Morais, já vendida em trinta países? Corri para a livraria e não me arrependi.
Se estou sendo basicamente apedrejada em praça pública a andar com "O Mago" por aí - apesar de já ter despertado o interesse de alguns incrédulos, só com a sinopse da biografia, ao confessar publicamente que comprei um livro do tal autor, então, não quero nem vem o que me espera. No meu íntimo, espero que o livro seja bom, apesar de o desejo de ler vir mais de curiosidade do que de qualquer outra coisa. Acho, ainda, que Paulo Coelho não mata (apesar de que, na primeira vez que encostou em um volante, quase matou um menino de sete anos) e nem emburrece. Continuo a sempre fiel leitora de Ericos, Sabinos, Gabriéis, Scotts e Daltons. Que, mesmo não rendida ao fenômeno Paulo Coelho, o entende melhor, e certamente o respeita mais. Mais uma chance, portanto, ao autor. Quero entender melhor o que a biografia está me mostrando: o que o mundo precisa, mais do que de livros com tom infantilizado, é de alento.
posted by MAÍRA BUENO at 11:31 AM
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Terça-feira, Abril 22, 2008
Esses dias cinzentos na Pampulha são, sei lá, os piores. Nem faz aquele calor que me deixa morena-camarão mesmo quando deveria estar amarelada de escritório, mas, não sei. Aliás falei que não sei duas vezes em duas frases. Ando não sabendo de muitas coisas. Engraçado como ontem me senti tão dona do mundo, com minha carteira nova (aquela que serve para dirigir), tão bem relacionada com minha família (e realmente não tenho problemas sérios com isso), até inteligente, lendo as coisas maravilhosas da aula do Kika (professor Euclides Guimarães, demos o crédito que ele merece) e vendo filmes espertinhos. Acho que é a Pampulha cinza mesmo. Quando anoitecer já está tudo normal.
Mas bom mesmo é Era uma vez no oeste, do Sergio Leone. Eu sei, provavelmente eu sou a última pessoa a ter visto esse filme, estou tipo quarenta anos atrasada, mas que coisa fantástica. Nunca achei que fosse ficar quase três horas – boquiaberta – vendo um faroeste. Preconceito? Certamente. Estou mudando, contudo, nessas aulas do professor Capuzzo. Percebendo 1) que westerns podem, sim, prestar, e bem mais do que eu imaginava - detalhe que vi outro no feriado; 2) que o Eisenstein não é o único cara da montagem, apesar de ser ainda meu favorito, e estou começando a me encantar com o Griffith. É óbvio, as coisas não saem do nada. Mas é bom reconhecer os passos históricos, dar valor a cada coisa individualmente e largar a postura falso cult se precisar etc.
Fica a dica para os escassos porém fiéis leitores do blog. Era uma vez no oeste, o purgatório no sol a pino, de sombras coloridas e móveis, de silêncios contundentes e “barulhos estranhos” arrepiantes. Da gaita que sobrevive e morre e mata. Da marcação quase feita na pele.
posted by MAÍRA BUENO at 2:49 PM
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Quinta-feira, Abril 03, 2008
E as garotas não ficaram mesmo impunes. Nem com o respaldo de Zelda, Scott, Nick, Gabriel, Italo, Fernando, Sérgio, Eddie, Maria, André, Dorine, Rachel, Chandler, Drew, Claire, Holly, Jim, Philip, Gus, Robert, Chris, Oscar, Alvy ou mesmo Godfrey e Britney.
As garotas não ficaram impunes por terem sido também os outros. E por terem sido elas, lá com os problemas de cada uma delas e delas juntas. E por terem envolvido pessoas que não são só de luz, só de papel ou só de acordes.
Elas não ficaram impunes, mas como poderiam?
posted by MAÍRA BUENO at 12:18 PM
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Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
O quadro que parece literatura e que me fascina todos os dias
Sem título
Ivan Serpa
Óleo sobre Tela
1964
(Acervo do Museu de Arte da Pampulha. Pode ser visto na exposição Neovanguardas, no MAP, até o dia 16 de março de 2008.)
posted by MAÍRA BUENO at 1:15 PM
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Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Quando a única [e melancólica...? Não, acho que talvez lânguida seja a palavra] certeza é de que tudo o que vai restar é o suave aroma de chá, deparo-me com:
"Todos esses que ai estão atravancando meu caminho. Eles passarão, eu passarinho".
A perfeição que todo mundo deseja é tão irreal e no final é isso, tudo vai passar, e a única coisa que dá para fazer é transformar os problemas diários em poesias cotidianas, e ser feliz como der, passarão ou passarinho. Sobre o padrão de vida perfeito o poeta ainda faz algumas outras observações, escolhi uma:
"Buscar a perfeição? Não seja vulgar. A autenticidade é muito mais difícil".
Tente um estilo de vida Quintana, autêntico. Quando for reclamar, faça uma poesia, dessas, cheias de esperança e pessimismo, uma poesia triste e alegre, que mostre que a vida é isso mesmo, nem boa, nem ruim, mas, pode ser levada com muita graça.
( Marcelo Valadares. Tirei daqui.)
Poucas linhas de Mário, de Marcelo. As linhas que preciso agora, para falar para mim e para todo mundo.
posted by MAÍRA BUENO at 12:34 PM
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Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
Kika diz:
Você é mais tranqüila que o comum e tudo gira em torno disso, ó
Em pouco tempo você repetiu de várias formas diferentes que se acha nova. Você também repetiu algumas vezes que as coisas conseguem te agoniar, mas que você consegue se desdobrar e pôr pontos finais quando eles são necessários.
Sabe o que você é? Uma mulher brincando de menininha. Ainda que pouco você tenha vivido, você já deve ter deixado a criança que você um dia foi pra trás há muito tempo, só não se deu conta disso. Uma menina não teria a mesma capacidade que você tem de passar por cima de você mesma e se resolver com isso. Aliás, até isso é traço de serenidade. Ninguém desesperado é capaz de curar o próprio tormento.
Lembra do que eu te disse sobre ninguém poder se auto avaliar? Então, haha. Se você o tivesse feito anormalmente certo, você já teria se convencido que é mais madura do que essa menina que você acha que é só porque atingiu alguns objetivos comuns antes do que todos os outros a sua volta.
Maíra (2) diz:
kika. se eu te contar que hoje fui ao cinema, saí para ir ao banheiro (coisa que nunca faço) e quando eu me vi no espelho eu vi uma adulta pela primeira vez vc acredita?
Maíra (2) diz:
mesmo que assim. qdo assinaram minha carteira eu falei : ó, agora sou adulta, coisas assim. mas foi hoje
Kika diz:
não falei? Você não o fez sozinha, você precisou de um espelho pra isso, saca? Não, isso não deve te diminuir, tipo "não fui eu que consegui", mas é só pra te mostrar que o que você interpretou não foi o que você viu em você mesma, foi o que o espelho te mostrou.
posted by MAÍRA BUENO at 1:33 AM
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Sábado, Dezembro 29, 2007
Já estou ensaiando um post fazendo o tradicional balanço do ano há séculos. Mas parece que ultimamente não estou inspirada. Não estou inspirada para escrever, para trabalhar, acho que nem para comprar presentes. Os últimos dias têm sido ruins "de com força". Acho que é o tal inferno astral, dizem que no aniversário passa. Cada vez mais perto dos 30, aliás. Mas enfim.
Não há como negar que 2007 foi um bom ano. Se não o de alegrias & aventuras mais intensas, provavelmente o de alegrias & aventuras mais duradouras. Viagenzinha básica (estranho... Essa noite sonhei com o Canadá denovo. É, acho que foi mais importante do que a maioria das pessoas pensa), emprego novo básico, desencalhada básica (ok, eu poderia ser menos grosseira & mais fofinha e dizer algo como namoro que tem me feito muito feliz etc, mas acho que isso anda estampado na minha cara). E por aí vai.
Nunca faço planos para o ano que vem, mas dessa vez rolou. Preciso, em 2008: tirar carteira, fazer uma pós graduação e estudar história da arte. Eu também queria viajar um pouco. Agora que trabalho em museu eu ando meio obcecada querendo ir em todos do mundo. O MAC de Niterói é, óbvio, uma das prioridades. Acho que eu queria mesmo era ter mais coragem para simplesmente ir. Fazer a mala (de rodinhas, claro, mochilão não vai bem com o meu ego 2) e ir. Estou pensando seriamente em fazer alguma coisa assim nas minhas férias (ai, setembro!). São Paulo (Museu da Língua Portuguesa, Instituto Tomie Ohtake, já pensou como eu vou arrasar em SP agora que sei tudo de arte? hahahaha), Curitiba, Rio, BH outra vez. Ou coisa parecida. Me convençam! Me ajudem a ser menos frouxa!
Feliz ano novo todo mundo! Acho que eu só volto em 2008 mesmo...
PS: Aos trancos e barrancos, mas esse blog fez 4 anos agora em dezembro. \o/
posted by MAÍRA BUENO at 11:50 AM
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Sexta-feira, Novembro 02, 2007
Hoje eu estava no ônibus e vi um velhinho de olhos azuis, bem claros. Pensei como eram bonitos os olhos dele, e como eu nunca liguei para olhos azuis nem nada (o layout do blog vem, antes, de uma forma de "escondimento" - épocas neuróticas da minha vida), mas como eu acho bonitos os velhinhos e as velhinhas de olhos azuis. Azuis claros. Só serve claro, bem clarinho. E eu nem sei por que.
[...]
Andei lendo num blog amigo algo sobre nuvens, sobre estrelas que estão longe mas que a gente sente perto. Sobre conquistas que faltam mas que já temos. Fiquei pensando mesmo é nas coisas que temos e não percebemos. Nem é aquela coisa de não dar valor, só dar quando perde, nem nada. Ou talvez seja.
[....]
É foda você se odiar tanto a ponto de ser agressivo com outra pessoa porque ela não respeitou os limites impostos pelo tal ódio.
posted by MAÍRA BUENO at 1:44 AM
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Quarta-feira, Setembro 12, 2007
A quarta partida
Depois que o vício começou, há coisa de cinco anos, não posso nem estimar quantas pessoas aprenderam a jogar gamão comigo. Todas jogaram, certamente, duas partidas: a das explicações e a do treino. Os mais empenhados jogaram uma terceira, para fixar melhor os ensinamentos. A sensação é de que, mesmo depois desses cinco anos, o que eu ainda procuro é quem jogue a quarta partida...
posted by MAÍRA BUENO at 10:31 PM
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Sexta-feira, Agosto 03, 2007
- eu te odeio. por que você não me avisou que seu irmão não é mais o batatinha frita xiq xiq xiq e é alto e magro e lindo e homem? e ele ficou falando comigo como se eu o conhecesse.
- mas você o conhece há dez anos!!!
- eu conheci outra pessoa! eu conheci o batatinha! ele está todo adulto, veio me contar que voltou do canadá, está fazendo cursinho, e que ainda está um pouco perdido, mas como assim ele estava sozinho na savassi? cadê o pai e a mãe dele?
e tem uma coisa que eu descobri que aposto que você sabia, não é que nem aquele negócio da jamaica que nós duas não sabíamos, aposto que você sabia que o roberto carlos tem uma perna mecânica!
- é, mariana, eu sabia mesmo.
- viu?
- mas eu só descobri outro dia que só aqui a gente fala 'copo lagoinha'. o resto do mundo fala 'copo americano'!!
- ah, mas isso não é tão vexame!
- mas outro dia eu descobri uma coisa muito vexaminosa também, só esqueci o que.
- me conta quando você lembrar. e me adiciona no orkut e no msn que agora eu sou moderna. mas não conta no orkut não porque eu provavelmente não vou saber. melhor a gente manter segredo das nossas descobertas.
- melhor mesmo.
posted by MAÍRA BUENO at 7:16 PM
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Quarta-feira, Julho 25, 2007
Aproveitei que hoje estou meio doente e toda doendo para fazer algumas coisas que eu já sabia que me doeriam, como escrever para Gordon e para Sunjin. Claro, aproveitando para finalmente começar a cortar itens da minha lista de "coisas para fazer". E, já que eu estou cheia de memórias e nostalgia canadenses, vou digitar algo que escrevi já tem um tempo, e que faz parte do meu diário de pessoas do Canadá. Faltam muitas pessoas nele, mas várias delas já tiveram suas histórias comigo aqui nesse blog. Acho que a próxima será Sunjin, e talvez ela seja a última. Quem sabe. E nem é assunto velho nem nada. Parece que foi outro dia mesmo. O tempo passa insanamente, mas não para essas memórias.
Barbara
Barbara foi a primeira pessoa a falar comigo quando vi Gordon tocar.
-Sente-se aqui.
Hesitei. Ensaiei ir-me embora. Mas voltei e sentei-me ao seu lado. As lágrimas eram tantas que ela se impressionou:
- Já vi muitas pessoas se emocionarem com a música de Gordon, mas nunca dessa forma.
- É que eu nunca vi nada tão lindo. Nunca vi ninguém tocar com tanto amor, com tanta devoção.
Na semana seguinte, levei-lhe um cd de música brasileira. Para mostrar-lhe a Bárbara do Chico. A elegante senhora quebrou todos os protocolos aprendidos na terra da Rainha, e me abralou com emoção.
Nos tornamos amigas de música. Compartilhei com ela os momentos mais felizes de muitas semanas - aquelas semanas em que só havia beleza na quinta-feira.
Barbara foi morar no Canadá aos 18 anos. Correndo de um ex-namorado maluco que a ameaçava com facas, e com o apoio do pai, um moreno bonito cuja foto tive a oportunidade de ver. Barbara jura que ele tem sangue espanhol - quem sabe não somos parentes? E uns bons cinqüenta anos depois, ela ainda é uma das tantas vozes com sotaque que encontramos em Toronto. Mas já tem uma filha e um neto canadenses.
Outro dia lhe disseram no ônibus:
- Poderia ficar ouvindo sua voz o resto da vida. Você fala exatamente como a minha falecida esposa.
Ainda na Inglaterra, Barbara aprendeu a tocar piano. Aos treze anos ganhou um concurso no colégio, e de prêmio levou 50 libras. A música que tocou foi Por Elise. Uma de minhas favoritas, que eu sempre pedia para Gordon tocar. Ele tocava. Barbara e eu suspirávamos. Nós duas sabíamos que cada uma de nos tinha motivos para se emocionar durante a execução da peça.
Foi dura a despedida. Nos despedimos várias vezes. E várias vezes ela disse:
- Goodbye. Until we meet again.
posted by MAÍRA BUENO at 9:05 PM
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Sexta-feira, Julho 20, 2007
Ontem, depois de uma noite mal dormida, acordei sobressaltada, muito cedo. Não demorou muito para eu notar que o Erico, meu peixe preferido, morreu, depois de quatro meses doente e de tratamentos mil. No aquário ao lado, pela noite, percebi filhotinhos de guppy. Fiquei pensando que a vida é assim mesmo, né? Para bettas, guppies e pessoas.
posted by MAÍRA BUENO at 8:56 PM
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Sábado, Junho 23, 2007
Enquanto isso, no Orkut...
H.: E como estão as coisas na volta ao país?! Aquele lance de choque de retorno também te pegou?
M.:Ah, menino, eu só não sei onde coloquei a minha vida...
H.: Vai ver está num pote de conserva tipo os de palmito...
posted by MAÍRA BUENO at 1:07 AM
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Terça-feira, Junho 19, 2007
"Parece que foi um sonho. Parece que não aconteceu." É, Zuzu, você estava certa desde o princípio. Parece que eu dormi um dia inteiro e que eu acordei meio zonza, sem saber onde eu guardo o secador e tendo esquecido que é preciso dar sinal para que os ônibus parem. Parece também que a minha escola está em greve e que a de todo mundo ainda está na ativa. Talvez seja mais uma coisa do meu ego 2 (eu sei que ultimamente eu só tenho falado em Eneagrama. Está sendo bom quase achar um norte nesse desespero todo), mas estou um tanto sozinha também.
Eu sei que era hora de voltar. Mesmo que eu fosse sentir saudades. É claro, quem não sentiria? Sei que foi válido. Que foi útil. Mas era hora de voltar. Talvez porque eu tivesse percebido que eu estava lá, talvez, também para adiar a decisão de finalmente escolher qual seria o próximo passo. Porque desde o sexto período de faculdade (segundo semestre de 2005), eu não sei qual seria o próximo passo. Dei alguns, fui bem-sucedida em vários.
Na verdade... Bom, eu sei que eu reclamo disso demais. Mas eu não acho justo estar formada tão nova. O meu problema não é nem ter escolhido a profissão tão nova, eu quase que já sabia desde os seis anos, quando decidi que gostaria de viver de escrever. Claro, jornalismo é o caminho mais óbvio para isso. O problema não é o jornalismo. É o que fazer com ele.
Até tenho alguns planos. Alguns plausíveis, alguns nem tanto, alguns meio desconexos. Mas estou com medo do primeiro passo (e nisso, mais uma vez, meus amigos estão praticamente me carregando no colo). Eu tenho medo do fracasso.
Fico devendo mil posts. Ainda sobre o Canadá. Mas chega por hoje.
posted by MAÍRA BUENO at 1:52 AM
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Segunda-feira, Maio 28, 2007
- ah, vai. me dá um abraço...
- Posso te dar um ombro e uma percepção atenta, se servir.. =/
O abraço eu guardo pra depois. Pena não poder dá-lo agora.
- nem é nada, sabe. só a coisa estranha de sempre...
-Me fala o que tu sentes...
-mas se nem eu sei!
mais um dia que passou... encontrei com a minha amiga, que eu não via há alguns dias. rápido, entre aulas. ela se lamentando porque quando a gente faz amigos eles vão embora. e eu toda 'forte': já vim preparada para isso de alguma forma, fica mais fácil já sabendo desde o início.
mas é mentira.
o que eu construí aqui pode ser - e acho que é mesmo - pouco, talvez pequeno para tanto tempo. mas não deixa de ser importante e partir, mesmo que seja uma necessidade, é também uma dor enorme...
eu queria ir embora agora, para evitar as duas quintas-feiras com piano, para não dar o cd do tom que eu pedi para a minha mãe trazer para o pianista, para não dar o machado de assis de quem minha amiga
(brasiliense, aliás), queixa-se de saudade.
para não fazer as fotos de toronto que eu tanto quero fazer, e depois postá-las no meu álbum com a letra de sampa, pois toronto é para mim o que sampa é ou foi para o caetano
-Eu também não conheço Caetano. rs...
Acho que eu entendo, mais ou menos, como você se sente, Maíra...
-"É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi , de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
-Acho que entendo.
( Aqui chove. Que bom... Hoje não vou passar mal. )
-vc passa mal quando não chove? deve ser complicado para você, aí em brasília
-( Eu achava que eu tinha contado... Que eu passo mal todo dia das 7 até as 10, de carência ou algo parecido... )
( Nunca entendi isso. )
-eu não tenho horário pra isso. mas geralmente é quando chove. ou neva, rs.
ou faz sol. ou só um solzinho fraco.
-A carência tem hora programada pra me assolar.
E todo dia eu tenho um encontro marcado com a falta. E geralmente, sem ninguém pra me consolar.
É uma coisa física, mesmo... Internet não resolve isso.
-é esse o problema chave da carência, né.
-Nem me fale...
-"canta a primavera, pá
cá estou carente
manda novamente
algum cheirinho de alecrim..."
-( De quem é essa? )
Maíra... Eu não sei ao certo como é que você se sente, porque acho que nunca Realmente perdi alguma coisa... Inclusive, um traço notório meu é que eu não sinto saudades, acho que cheguei a comentar com você...
-(do chico. pra variar)
-( Só d'Ela, mesmo, rs... Mas isso é incomum. )
Acho que você tá fragilizada em vários aspectos... E bom, talvez a mudança de ambiente te cause também uma mudança, um choque de identidade tremendo...
-não negue suas perdas, A.
-( Acho que só nunca perdi alguém que REALMENTE queria... )
Eu aceito distâncias bem... Doem, na hora, é óbvio... Mas depois... Passa...
-eu costumava ser assim também. mas, sei lá. de repente parece que eu nunca vou conseguir construir nada de fato. talvez por isso eu queira ser mãe. vai saber.
A., quero te pedir licença para postar essa conversa, ou boas partes dela, no meu blog. eu escrevi para você umas coisas que queria ter escrito lá, mas não vou escrever porque agora vou ouvir Pearl Jam e escrever uma carta (de papel mesmo). posso?
- Tudo bem... Pode postar sim. : )
E eu fico feliz que tenha pedido licença...
Se quiser sair, também, à vontade... Aqui a espera é cruel, mas eu vou esperando, pra ver no que vai dar.
( Ela ficou de me dar notícias sobre nosso encontro hoje; o crédito de celular dela acabou, e isso é uma saudade que arranca pedaços. )
-vou editar a conversa (hahaha quem disse que eu nunca ia te editar?) e ir... preciso do papel azul e da caneta roxa, rs
-Hunf.
Vê lá o que faz.
- vou indo. um beijo daqueles bem grandes pra vc :o)
-Beijos, Maíra... : ****
( Eu gosto de beijos grandes. rs... ; ) )
- (eu também, hehehe)
posted by MAÍRA BUENO at 7:04 PM
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Domingo, Abril 22, 2007
A quem estou tentando enganar? Só porque eu estou vivendo algo que muitas pessoas não vivem eu tenho que fingir que estou bem? Tenho que estar bem? Quando eu me sinto mais sozinha do que nunca? Quando eu vejo máscaras caírem? Quando eu fico com pena o dia inteiro de uma pessoa que eu amo? E depois da pena vem a raiva, é instantâneo. Não sei se eu que ando irritadiça ou se a coisa está mesmo mais feia do que nunca. Acho que ambos, na verdade.
Eu queria mudar. Mudar eu, mudar o clima da casa. Mas não sei. Tá foda. Foda demais.
E eu vejo a vida passando. Totalmente stuck. Sabe? Fico me sentindo culpada por não estar feliz. Mesmo sabendo que isso é loucura.
"É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste..."
(Vinicius de Morais )
(Acho que não "sou" triste, que "estou". Mas faz tanto sentido, né?)
posted by MAÍRA BUENO at 12:44 AM
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Quinta-feira, Abril 19, 2007
Elizabeth e Nigel
Fiquei duas semanas sem ir ver Gordon tocar. Não sei exatamente por que, acho que precisava dar um tempo na minha (ainda nova) rotina. Precisava resolver algumas coisas pra ontem, e acabou só rolando na quinta-feira, por um motivo ou por outro.
Hoje fui, mesmo que para ficar quase nenhum tempo (a mãe da Júlia está aqui e vamos sair todas juntas - estou no metrô, indo encontrar-me com elas). Além da música, do encontro com Gordon, Barbara e as outras velhinhas, uma surpresa me fez muito alegre. Elizabeth finalmente saiu do hospital.
Elizabeth é uma adorável e excêntrica senhora. Atriz aposentada, gosta de dançar e de atuar, contracenando com o piano de Gordon. Seu sotaque tem algo de britânico, mas não tenho certeza de onde ela nasceu. Sei que ela é uma pessoa cálida, extrovertida, carinhosa. Adora me abraçar, seja porque a ajudei a fazer um curativo no pé castigado pelas pesadas botas de inverno, seja porque ela vai sentir minha falta quando eu voltar para o Brasil.
Na primeira ou segunda vez em que a vi, sua neta estava impaciente, não queria esperar (como de fato não esperou) o fim do concerto. O que hoje me parece um pouco estranho. Elizabeth é tão dona de si, com seu cabelo meio arrepiado e os olhos muito azuis sempre delineados de preto. Com sua desibinição em dançar e recitar trechos inteiros de peças antigas.
Definitivamente, uma pessoa única. Pode procurar a vida inteira: você não vai encontrar outra Elizabeth. E, pelo que ela diz, também não se encontra outro Nigel, seu falecido marido.
Nigel, cuja perda Elizabeth lamenta há seia anos, era uma pessoa boa, sempre disposta a ajudar quem quer que fosse. Quando de sua morte, duas vizinha do casal, ambas já por volta dos 100 anos, também ficaram desoladas:
- Por que não nós?
Há algumas semanas Elizabeth não aparecia. Logo descobri que ela estava internada, com uma grava pneumonia. Meu coração ficou apertado, cheio de medo. E a cada semana que ela não vinha, ficava mais preocupado com a possibilidade de que ela não voltasse. Além disso, as notícias sobre ela eram sempre muito evasivas.
Hoje, felizmente, ela voltou. Mais maquiada, mas mais quieta. Quando a vi, ignorei todas as pessoas ao nosso redor:
- Você não imagina como estou feliz em vê-la!
Ela me deu um abraço apertado, sorriu e disse que ainda não estava 100%, mas que já se sentia bem. Logo em seguida, começou a contar que Nigel costumava chamá-la de Joana D'Arc, por considerá-la forte e cheia de iniciativa. E que ele estava olhando por ela e pela família, certamente pensando que uma das netas deles tinha recebido o gene de Joana D'Arc da avó. E Elizabeth ainda completou:
- Nigel podia não ser tão aparecido, nem ter tanta iniciativa logo de cara. Mas era a única pessoa, e também a mais forte e compreensiva, com quem todos podiam contar a qualquer momento.
Com um sorriso entre triste e alegre, os olhos azuis de Elizabeth brilharam de saudade.
posted by MAÍRA BUENO at 11:32 PM
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Sexta-feira, Abril 06, 2007
Sam
Eu só faço burrada. Em um intervalo de quatro horas e meia eu fiz duas, e das grandes. Homéricas, eu diria. Uma delas, foi pela segunda vez no mesmo dia. Não sei se vou conseguir consertar. A outra é irreversível. Estou muito puta. Também porque estamos sem internet e a droga da internet aqui de casa é assim: vai e não volta. Estou muito puta mesmo. Mas, enfim. Estou há dias para contar uma história. Aconteceu na quarta-feira passada, dia 28 (mas só deus sabe quando eu vou postar). E não é bom. Mas estou com tanta raiva que nem sei se vai ajudar a esquecer um pouco o que está acontecendo, as burradas que eu estou fazendo. Ou as chateações que o computador me mostra toda hora. (Até o Blogger agora tá dando pau, que preguiça!)
Quarta-feira passada eu estava tranquilamente na sala, fazendo nada, antes de ir para a aula. Como temos uma janela gigante (praticamente do tamanho da parede), dá para ver tudo lá fora (a gente já abstraiu que dá para ver tudo aqui dentro, mas não faz mal mesmo: a rua é tranquila e, oras, estamos no Canadá!) Reparei que umas pessoas (três, dois homens e uma mulher) estavam saindo da casa meio apressados. E que de lá estava saindo uma fumaça meio branca, muito fraquinha. Como a casa é exatamente em frente à nossa e o dia estava meio frio (o frio aqui não vai embora nunca, o que só potencializa os efeitos da minha burrada irreversível), achei que fosse, sei lá, aquela poeira de neve que de vez em quando fica voando baixinho que nem areia em deserto.
Depois eu vi que não: que estava saindo fumaça pela chaminé, e muita. Logo chegaram os bombeiros, milhares, onze caminhões/caminhonetes que eu CONTEI. Fora três ambulâncias e umas outras três viaturas.
Fui pra aula. Como quando passa bombeiro aqui o povo fala "ixi, tem um gato preso numa árvore", e eu vi um monte de gente saindo de casa, apesar da fumaça não me preocupei. Achei que o fogão tivesse pegado fogo (?).
Voltei da aula e eles tinham isolado muita coisa e a Júlia, que mora comigo, depois me contou da morte de uma pessoa. Ela conversou com uma vizinha e a vizinha disse: "pobre Sam, que nem conseguia se mexer". Daí supusemos que era um paraplégico. Mas no dia seguinte bate uma amiga dos nossos landlords (que estão viajando pelo mundo e por isso alugaram a casa toda mobiliada - o que também é muito estranho e assunto para um futuro post) para pegar a correspondência deles e ela conta para mim e para a Júlia que o Sam tinha uma doença lá que a gente não entendeu (não sei se entenderíamos nem em Português, mas, enfim) e ele era tetraplégico. E respirava por traqueostomia! E que tinha mulher e uma filha mais ou menos da minha idade, um pouco mais nova talvez.
No dia seguinte bateu um vizinho, da casa 4 (moramos na 8 e o Sam morava na 9), para trazer um papel sobre o velório e tudo, e eu fiquei conversando com ele também. Ele me contou que as três pessoas que saíram da casa eram empregados lá e ele usou a palavra 'tenant', não sei se uma dessas pessoas alugava o porão ou algo assim. E que ele tinha uma enfermeira, mas eu não sei onde estava. E que a viúva tinha saído de casa para tomar conta da mãe, que está doente!
Fiquei muito chocada. Daqui de casa não dava para ver fogo nenhum MESMO. Eu não sei o que aconteceu que eles não conseguiram salvar o Sam. Dizem que ele era grande, talvez fosse difícil movê-lo. O fogo veio por trás, eu acho. E também achamos possível que, como ele já não respirava bem, ele tenha morrido intoxicado em pouco tempo. Mas mesmo assim eu acho muito estranho.
Esqueci de mencionar que no jornal, no dia seguinte, saiu uma notinha sobre o assunto. Minúscula, não esclarecia nada (esses jornalistas!), mas dizia que três bombeiros tinham ido para o hospital: dois intoxicados pela fumaça e um com ossos quebrados. Então a coisa foi muito mais feia do que parecia do lado de cá da rua.
A família é judia e, portanto, deveria estar recebendo visitas dos amigos e parentes por uma semana, como é de praxe. Mas a casa está toda fechada, talvez até selada. Tábuas de madeira foram colocadas nas janelas, porque os vidros estavam quebrados (não sei se os bombeiros quebraram no resgate ou se explodiu, quando eu saí de casa acho que eles ainda estavam lá). Na verdade, há alguns dias eu percebi que estão reformando a casa.
Os donos da nossa casa nos orientaram a oferecer nossa garagem para colocar os carros das visitas (já que não temos carro mesmo), mas nem isso elas têm nesse momento. Claro que a perda do ente querido nem se compara à perda da casa, mas, eu não sei, a coisa deve estar tão potencializada também por causa disso... Principalmente porque nem os rituais da religião deles eles estão conseguindo cumprir, e eu acho que deve ser importante na hora de dor.
O vizinho do 4 disse que acha que a viúva deve querer conversar comigo quando tudo passar. Parece que eu fui a única a ver, ainda que mais ou menos, o que aconteceu. Aiai. que coisa mais triste!
posted by MAÍRA BUENO at 2:26 PM
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Sábado, Março 24, 2007
Do Diário de Maíra, segunda edição
Ontem recebi duas bombas pelo Orkut. Nada que eu não soubesse, mas eu não precisava ver... Fiquei meio desconcentrada, achando a vida ruim. Chorei (mas de tristeza) ouvindo Gordon tocar, comi fast food, não queria voltar pra casa.
Voltei, no entanto. Triste, triste. Fui ver Elizabethtown. Eu sabia vagamente que ia ter algo sobre "pessoas substitutas". Sabia que ia me identificar nesse contexto. Sabia que muitas pessoas da comunidade da Charlotte (de Lost in Translation) também são um pouco Claire. Mas não sabia o tanto que o filme era sobre mim. E sobre ele, e sobre nós, como todos os filmes do mundo. Eu sou, definitivamente, uma pessoa substituta, inclusive para ele. Impossible to forget, but hard to remember. E ontem eu estava tão triste que eu não sabia como ia ser hoje.
Hoje teve céu claro, teve calor (10°C), teve capuccino na aula de Gramática. Como ontem, teve Pearl Jam no metrô. Mas, diferente de ontem, o Vedder me fez ver beleza no mundo, na minha vida, no meu caminho de volta pra casa. O Vedder. Me fez inclusive pensar nele, mas nas coisas bonitas dele.
Meu pai me contou uma história que ficou sabendo ontem. Uma concunhada de minha avó foi apaixonada a vida inteira por um namorado com quem seu pai não a deixou casar. Ela casou com outro, ficou viúva, mas rezava por ele todas as noites. Não para que ele voltasse, mas porque pensava que ele tinha morrido. Aos 79, ela recebe uma visita dele. Também viúvo, o amor de sua vida resolveu procurá-la.
Eles se casam semana que vem.
Hoje teve história bonita, teve sorriso para a vida, teve Decálogo (o 7), teve soneca à tarde, teve sol, teve passeio pela vizinhança. Mas é muito difícil quando ninguém se lembra de você. Ser a pessoa substituta pode ter algo de nobre. Mas quando não se é necessária, é difícil demais. E dói.
posted by MAÍRA BUENO at 2:11 AM
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Sexta-feira, Março 09, 2007
Como boa capricorniana, eu não costumo desistir das coisas facilmente. Mas essa brincadeira séria de faxina foi longe demais. Em pouco tempo conheci as pessoas mais escrotas (desculpem o palavreado, mas não há nada mais brando do que isso para descrevê-las) que já vi. Pessoas que se acham melhores do que as outras, que querem humilhar o outro a qualquer momento. Que deixavam qualquer ambiente carregado de energia negativa. Eu mesma que nem sou muito dessas coisas sentia uma tensão, um peso no ar. Se eu vou deixar de fazer algumas coisas porque não tenho mais esse dinheiro? Sem dúvida. Mas tem coisa que não vale a pena. Não tem nem muita justificativa, simplesmente não vale a pena. Não vale a pena ser humilhada toda hora, ter que pisar em ovos com todos para no final do mês receber um salário que, em reais, é até alto, mas que aqui continua sendo tão pouco que nenhum canadense quer esse emprego. Fico chateada, um pouco. Mas ao mesmo tempo aliviada. Afinal de contas, continuo cumprindo meu objetivo nessa viagem. (E ainda estou com algumas expectativas vídeo-cinematográficas, tomara que pelo menos isso dê certo.) Lembro também da Cris, zombando de brasileiro deslumbrado: "você lavou privada nos Estados Unidos? Deve ter sido uma experiência incrível para você!" Olha, não é mesmo não. E, como bem lembrou um amigo meu, como eu estava trabalhando em edifícios comerciais, não dava nem para fuxicar a vida de ninguém, hehehe. Enfim. Foi bom enquanto durou (na verdade na verdade não, né, mas vocês entendem. O mais estranho - uma experiência intensa e desconcertante, devo dizer - era viver em dois limites, em dois opostos, no topo e no chão de uma hierarquia sócio-cultural, no espaço de algumas horas.) Mas que fique bem claro aqui o tanto que admiro esse povo que vem tentar a vida aqui em cima e que consegue. Não é uma vida fácil. Eu mesma não dei conta... (Depois venho aqui contar de uma verdadeira personagem que conheci, uma pernambucana doce e arretada!) Só é uma pena que a injustiça social seja tão gritante não só no Brasil como no resto do mundo. E com tanta gente escrota por aí eu não sei se isso vai mudar.
Bom. E eu ainda estou pensando no que é loucura maior, eu e meu pai não chegamos a um consenso:
1- Dizer que esse inverno está sendo "brando";
2- Dizer que Toronto é a cidade tropical do Canadá.
Hoje ouvi piano de novo, mas nem encontrei com Barbara (para quem dei o CD semana passada), saí mais cedo por causa do trabalho. Hoje até meu pai foi. O clima de lá é muito bom, sabe? E estou ficando muito amiga das velhinhas. Coitadas, a maioria é viúva. Não deve ser fácil para elas também. Aliás, ultimamente eu estou achando que não é fácil para ninguém. Isso me lembra Lost in Translation: "I'm stuck. Does it get easier?"
Enfim. Gordon tocou Moon River, o noturno que eu gosto e Por Elise, aquela música que é como o amor, que espanca doce. Fiquei toda emocionada.
posted by MAÍRA BUENO at 2:36 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
O Pianista
Pois eu estava andando por um shopping perto da minha escola, meio sem assunto, meio para olhar um livro que eu quero ( Breakfast at Tiffanny's), meio para comprar um presente para a minha mãe... Ouço alguém tocando piano. Não dou muita atenção e continuo o meu caminho.
Quando volto, a música é um dos Noturnos do Chopin, que eu nunca sei qual é qual, confundo aqueles números e aquelas notas todas. Me aproximo. Percebo que o pianista toca com o corpo inteiro e com a alma. Mais até do que o Wladeck Spielzman, o pianista do Polanski. E um Noturno, como o outro! Não consigo me conter: as lágrimas caem aos cântaros. Logo as velhinhas, sentadas em cadeiras de armar, ao redor do piano, começam a reparar em mim. Mas eu só tenho ouvidos para a música. Percebo, contudo, que o pianista me olha vez ou outra. Talvez eu perceba até que ele esteja um pouco surpreso com a minha emoção. A música acaba. Palmas. O pianista me olha nos olhos, e eu digo, sem a voz: "thank you". Uma das velhinhas pergunta se eu não quero me sentar. O pianista me convida para sentar. "Não, infelizmente estou com pressa".
Ah, a inevitável mania da pressa. Eu viro as costas e sigo meu caminho, mais uma vez. Não posso, entretanto, seguir em frente. Eu volto. Sento-me ao lado de uma simpática senhora, que diz se chamar Barbara, e diz que o pianista se chama Gordon. A música continua. E acaba. Palmas. Barbara pede uma em especial. Gordon atende a seu pedido, e toca lindamente. Eu não consigo me controlar, não consigo parar de chorar. Por nem um minuto. Barbara me oferece um lenço. "Obrigada, mas eu acho que tenho um aqui".
Eu sentia a música em mim. Dentro de mim, do meu corpo, de minha mente, atingindo meu coração. E as lágrimas continuam caindo. Barbara diz que já tinha visto muita gente se emocionar com a música de Gordon, mas que nunca ninguém tinha se emocionado tanto quanto eu.
"É que eu sinto a música vindo dele. Eu sinto a paixão com que ele toca. Nunca vi ninguém assim. Nunca vi nada tão bonito!"
"Diga isso a ele. Muitas vezes ele diz que não toca bem."
Barbara me faz dizer isso a Gordon, em um pequeno intervalo. Ele me olha nos olhos, agradecido:
"Você não tem idéia do quanto isso significa para mim. Muito obrigado!"
"Obrigada você. Sua música salvou meu dia".
Em breve descubro, entre uma lágrima e outra, que Gordon se apresenta no mesmo lugar, às quintas-feiras, na hora do almoço, há quatro anos. Tenho a triste sensação de que perdi várias quintas-feiras da minha estadia em Toronto. Por que eu as utilizei tão mal? Barbara me conta que há dois anos se fez a mesma pergunta, quando passou a frequentar os concertos de Gordon, organizados pelo próprio shopping, religiosamente todas as semanas.
Pessoas vêm e pessoas vão. O pianista atende a inúmeros pedidos. Eu queria que ele tocasse "aquele" noturno. Aquele. Do filme do Polanski. Cantarolo para Barbara, ela talvez reconheça. Mas ele tem muitos pedidos a atender. E ouvimos As Time Goes By, You Were Always on My Mind, New York, New York e outras tantas. Fora as clássicas.
A meu pedido, no entanto, ele toca Moon River. É, aquela mesma, do início do filme Breakfast at Tiffany's. Aquela que Holly Golightly canta em uma serenata para Fred Darling. Lindo de morrer.
O concerto acaba. Conto a Barbara que temos uma música com o seu nome, no Brasil. Ela me faz cantar para Gordon! Céus! Detesto cantar e ser ouvida (por causa da minha "baixa amplitude vocal", uma maneira quase educada que arrumaram de dizer que eu sou desafinada, certa vez), faço meu melhor.
"Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou? Onde estás?
Meu amor, vem me buscar"
Prometo um CD para a próxima quinta, com Bárbara e também Cala a Boca, Bárbara, naturalmente.
Talvez eu estivesse ´particularmente emotiva naquele momento (não, não era TPM - todo mundo sabe que nessa época eu choro até vendo jornal), mas música boa assim, com pessoas tão legais assim, não se encontra em qualquer lugar. Não sei o que fiz das minhas quintas-feiras passadas. Mas sei bem o que vou fazer das próximas.
posted by MAÍRA BUENO at 12:50 PM
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Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
Quase um mês no Canadá! E quase um mês sem dar as caras por aqui. Não me admiro que meus leitores tenham sumido um pouco. Mas, enfim. Tenho que confessar que nem é por falta de novidades, nem de idéias, nem de tempo e talvez nem de preguiça. Talvez seja só displicência mesmo. Pior ainda.
Bom, por aqui tudo está bem. As aulas de inglês vão bem, as aulas de cinema vão bem e o frio vai ótimo, mas só para ele. Acho até que envelheci. A julgar pelo estado de minhas mãos, pelo menos uns 20 anos. Afinal, eu não sou nenhuma mocinha, e já estou com quase 30! Mesmo que eu esteja gastando toneladas de creme hidratante, não adianta. Estou envelhecendo mesmo, é inevitável. Minha pele me lembra disso o tempo todo, aiai. Meus lábios também. Só o meu cabelo que não está tão mal. Pelo menos isso. Aliás, data para comemorar. Ou pelo menos para lembrar. Hoje fez um mês que eu não faço chapinha (a última foi para viajar). E, como eu disse, meu cabelo está bem, juro! É que aqui eu não saio com ele molhado na rua (senão a orelhinha congela e quebra, vocês sabem como é), geralmente eu seco com o secador. Mas ultimamente ando assumindo a juba, com as habituais toneladas de creme, claro. Pensando bem, ele fica muito melhor quando eu seco com secador. Acho que vou fazer isso mais vezes.
Mas sem brincadeira. O frio aqui é profissional. Quando escrevi o último post eu achava que sabia o que era frio, mas na semana seguinte piorou. Resolvi assumir que não sei o que é frio e não, obrigada, não quero saber. Eu sei que o ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar e tudo, mas eu acho que cheguei no meu limite. Chega. Cansei. Quero sol que esquente. Aqui até faz uns dias bonitos às vezes, mas de que adianta.
O foda é que ainda tem mais dois meses disso pela frente.
Aiai. O mais impressionante de tudo é que, apesar de todas essas coisas e apesar de sentir frio até em casa (ah, cheguei à conclusão de que a gente se veste para ter menos frio, não para não ter frio. O frio aqui é sistêmico, inevitável e imbatível), como eu ia dizendo, entrei na academia. E sabe que hoje, com a minha super personal trainner (não reparem, eu sou fina mesmo), eu gostei de malhar. Pela primeira vez na vida, efetivamente, gostei de puxar ferro. Claro que eu vou fazer só umas três vezes por semana, para que a empolgação se estenda no tempo.
Enfim. Não sei se quero escrever mais. Queria contar que estou tendo muitos altos e baixos. Agora pelo menos estou num alto! :o) Tive um dia muito agradável, a propósito. Até assisti Harold & Maude, para arrematar. Esse filme melhora meu dia.
E falando em arrematar, isso eu tenho que dizer. Estou tricotando loucamente! Vou até postar uma fotinha para provar (quem tem orkut já viu). É uma delícia fazer tricô. E como eu já estou com quase 30 anos, é bom me acostumar com a velhice, rs. Fico morrendo de saudades da minha avó...
PS: O Blogger não quis cooperar. Quem quiser ver como estou prendada vai ter que olhar no orkut...
posted by MAÍRA BUENO at 12:32 AM
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Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
Desde que cheguei em Toronto tenho pensado muito em como o frio é humilhante. O primeiro ponto são as tão pouco dignas ceroulas - prefiro morrer a ser vista com aquilo. Fora que hoje, voltando pra casa, senti tanto frio que acho que vou ter que colocar uma meia-calça por baixo de (quase) tudo.
Estou completamente destituída de vaidade. Como aqui eu não uso apenas um cachecol, mas também uma espécie de pedaço de burca (aliás, o que eu não daria para ter uma peça única que resolvesse todos os meus problemas térmicos! Calça, camisa e a tal burca térmica. Chega nos lugares, é só tirá-la, ao invés de tirar luvas, gorro, cachecol, pescoceiras e sobretudo. Vou inventar esse troço e ficar rica, vocês vão ver!) Como eu ia dizendo, como saio por aí de burca, não passo mais batom, senão borra tudo (só chapstick porque meus lábios estão terríveis, coitados), não uso mais tantos brincos (nesse tira e coloca de coisas um meu já caiu. Só dá para usar os que têm tarrachas. Aqueles de dependurar, nem pensar)...
Tem alguém pensando na minha inseparável chapinha? Quando eu achei que finalmente ia ter uma vida completamente chapada (no Brasil eu só faço de vez em quando porque tenho que lavar o cabelo praticamente todos os dias), uma vez que lavo o cabelo dia sim dia não, descubro que não vale a pena. O gorro amassa meu cabelo! Eu uso secador e olhe lá! Só para não morrer de frio quando saio na rua. Aliás ontem meu cabelo congelou. Eu estava com a mencionada pescoceira, e o vapor da minha respiração (ok, é meio nojento) saía por cima, tipo uma chaminé. Em contato com o frio, o vapor virou água em uma mecha de cabelo que me escapou pelo gorro, perto dos olhos e congelou!
Falando em congelar, hoje fiquei emocionada. Estava quase chegando na escola de inglês e estava nevando. Caiu um floquinho de neve no formatinho daqueles desenhos de neve, sabe? A coisa mais fofa do mundo. Parecia um pequeno diamante. Eu poderia usá-lo como brinco. Ops! Já tenho um brinco nesse formato! E que coincidência, minhas primas o trouxeram justamente do Canadá.
Apesar de tudo, não estou exatamente passando frio. Ontem fez menos 11 quando eu estava fora de casa e eu não passei frio. Hoje, voltando, estava só menos 3 e eu achei que ia congelar. Eu estava toda feliz esses dias achando que até ia sobreviver com a minha botinha brasileira (o ruim é que ela é meio de salto e não dá para andar muuiiito) e o meu all star. Talvez eu até sobreviva, pensando bem. Não quero comprar um sapato que nunca mais vou usar. Que saudades das minhas melissas coloridas!
Ruim mesmo é andar na neve. Parece areia. Só que gelado. E usando botas. Correndo risco de escorregar. Um saco. Eu estava toda alegre que não tinha caído ainda, mas ontem, voltando da faculdade (ha ha ha como sou chique, mas não vou contar porque tem muita gente agourenta por aí. Ok, nem é tããão chique assim), e fiquei perdida dentro do prédio, saí de lá pela saída errada. Até achar o caminho certo eu acabei caindo. Na verdade, eu não caí. Foi meio como agachar e colocar a mão (direita) no chão, nem caí mesmo. Considerando o meu histórico de quedas em calçadas de pedras portuguesas (principalmente no Sion), estou indo bem.
É impressionante como eu não aprendo. Não basta ter ficado perdida em Belo Horizonte a minha vida inteira (incrível como não me perdi em outros lugares como Nova York), agora fico perdida em Toronto. E muito. Claro que são umas perdidinhas rápidas, eu logo acho o meu caminho. Mas perdida perto de casa é quase todo dia. E hoje... bom, vou explicar direito.
Andei pensando como o metrô (como eu gostaria de tê-lo em BH!!) se assemelha ao útero materno. Aquele suave balançar, o escurinho, o calor (lá fora é muuuiiito frio, acreditem). Até mesmo aquele barulho de líquido amniótico. Hoje acabei dormindo, perdi a estação. Não faz mal, eu gosto de andar de metrô e estou meio à toa mesmo...
Vou indo. Depois conto mais.
posted by MAÍRA BUENO at 5:50 PM
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Segunda-feira, Janeiro 15, 2007
Ok, primeira lição aprendida (em fase de assimilação): cada um por si e deus contra todos, como naquela velha canção. Tá, talvez deus esteja por todos, mas como até filhadaputice de irmão eu tive que agüentar hoje (mas filhadaputice mesmo!), vai saber de verdade.. Na verdade, as surpresas foram um pouco más. Não fiz quase nada no fim de semana, o que é obviamente um desperdício. Quando eu achei que estava tudo perdido, saí com meu pai. No começo foi ruim, até ele me perguntar por que eu chorava tanto (mas muito discretamente). Aí desabei, e foi ótimo para desabafar com alguém, com qualquer um. E a coisa se resolveu. Não que ele ache que a coisa aqui é nesse esquema de 'cada um por si', mas foi bom, ele me ouviu, como ele fez em uma época que precisei muito uns dois anos atrás ou quase isso.
Andamos pelo centro (?) de Toronto, que é uma cidade linda. Pena que já estava mais para de noite, aí nem aproveitei tanto. E nem está tão frio quanto imaginei que estaria, tá fazendo uns menos 2, mas consegui lidar com isso na boa. Mas é bonito. Tudo com cara de novo, não tem muita construção histórica. Mineiro estranha. Fomos a um bar de jazz (que tem um hotel em cima), com música ao vivo. Eles tocaram "Água de Beber". Foi muito legal. Até quando meu pai tirou os óculos (como conheço esse gesto!) e resolveu enfiar o dedo na ferida. Mas sem apontá-lo na minha cara, o que já é bom. Talvez seja como 'aprofundar' um pouco a relação. Veremos.
O passeio com meu pai salvou o dia e o fim de semana. Amanhã começam minhas atividades. Torçam por mim!
posted by MAÍRA BUENO at 1:44 AM
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Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
Da série "e-mails com o chefe"
5 estrelas, nota 9,9
"Ok, já votei nas 5 estrelas soltas.
Ah, fui no Chico ontem. Minha mãe ganhou 2 ingressos, mas não podia ir, por conta de outros compromissos... Por isso é que é melhor viver sem compromisso.
O show... Arrepiei com algumas das minhas favoritas de longo tempo, e que eu nunca tinha visto ao vivo: Lily Braun, A bela e a fera, O futebol, Cantando no Toró, Ela é Dançarina, Morro dois irmãos.
Outras eu já tinha visto ao vivo, mas sempre arrepiam: As vitrines, João e Maria, Quem te viu, quem te vê, Futuros amantes. Quanto ao disco novo, você sabe que eu não sou muito fã, mas algumas músicas acabaram me convencendo no show. Ela faz cinema, Dura na Queda, As atrizes. Outras continuei sem gostar. Bolero Blues, Sempre. Renata Maria. E outras eu já adorava: Subúrbio, Outros sonhos, Ode aos ratos, Imagina.
Cenário e iluminação lindos. Roteiro muito bem bolado, que capacidade de seqüência! Quase contou uma história com início meio fim. Nota 9,9.
Só não ganha 10 porque não entrou Estação Derradeira. É a mais carioca das cariocas, e a favorita da Vá. Que dó.
Beijinho, inté,
Leo"
"Olá!
Concordo com você em algumas coisas, tipo ter faltado Estação Derradeira (que entra no meu Top 3, sem dúvidas, ao lado de Futuros amantes, Tanto Mar [tá, não tinha a ver mas eu queria!!!!], Todo Sentimento e As Vitrines. Tá, Top5). Também concordo que é melhor viver sem compromisso (quando toca o samba, eu lhe tiro pra dançar..), e bom mesmo é deixar a menina... (Adoro as caras e bocas que ele faz quando canta que "ninguém aqui o aguenta mais"!)
Também eu gostei muito do show. Mas eu não posso dar menos que 10. Até porque eu adoooro o Carioca (em especial Dura na queda, Ode aos ratos, Imagina [que bom mesmo é com o Quarteto em Cy e com o MPB4. Já ouviu?] e a do Passarinho Español). E Renata Maria! Também não gosto de Bolero Blues. Nem de Por que era ela por que era eu. Acho as duas sem sal, dão até um desânimo.
E que delicadeza ele falar de Reinaldo e Tostão, hein, Leo? é mesmo um gentleman!!!! Ó, quando ele quiser eu caso! :o)
Luz, cenário, fiquei encantada com tudo. Tão simples e tão inteligente. E chorei (quase) o tempo todo. No primeiro dia chorei mais. Afinal, é, de fato, a realização de um sonho. E como assim você não mencionou a seqüência "Eu te amo - Palavra de Mulher"?! Torperchefe, achei que eu ia morrer, sinceramente. Nunca vi nada tão lindo na vida...
Enfim, eu acho que perfeito mesmo só seria se eu fizesse o set list, com pelo menos 60 músicas. Estação Derradeira, Tanto Mar e Todo Sentimento com certeza absoluta! Eu precisava ver ele cantando Tanto Mar, mas deixa.
De qualquer forma, eu nem sei se ainda estou acreditando total que fui em dois shows dele. Quando tinha idade para ir, estava em NY. E nem sei se vai ter um próximo.. =P
Como diria o Ruleandson, me joguei. E até sambei! ("ela só samba escondida que é pra ninguém reparar"...)
Tem umas fotos no meu orkut, as que ficaram melhores. Acho que não sou mesmo uma boa fotógrafa. Ou será que é porque eu estava em transe? rs.
Beijo e até amanhã!
Maíra"
posted by MAÍRA BUENO at 8:19 AM
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Sábado, Novembro 18, 2006
A Vida como espetáculo Uma análise da narrativa imagética e documental da Trilogia Qatsi
É tão engraçado como as coisas mudam rapidamente... Os dias em especial. Ontem eu ia ter, como diria Holly Golightly, um dia vermelho. E sem chance de tomar café na Tiffany's.. Saí de casa atrasada, tive que ir à Prefeitura buscar uns documentos do meu pai e, apesar de um encontro meteórico com um amigo que muito estimo, nada parecia estar dando certo. Eu estava muito atrasada para uma apresentação de um trabalho que eu não gostaria de apresentar (e nem de fazer), e ainda tinha que imprimi-lo. Fiquei nervosa, com vontade de chorar, assim, do nada. Mas consegui imprimir o trabalho, apresentei-o e acho até que eu e minha dupla nos saímos bem.
Quando eu estava saindo da faculdade (pois tenho mil coisas da minha viagem para resolver), o Leo, meu orientador me liga:
- Você não vem para a sua banca?
Eu simplesmente não sabia! Existia a possibilidade da minha banca ocorrer na sexta, mas ninguém confirmou comigo. Eu não podia simplesmente desertar, é óbvio. Fui.
Ficamos na antesala do Jornal Impressão. Leo e Nísio, o examinador (?) na minha frente. Leo falou, eu falei muita bobagem (tá, bobagem não. Mas eu estava assustada!) e Nísio começou:
- Maíra, sua monografia era previsível... (Tive vontade de sumir!) Ou seja, muito boa. O seu estudo é um exemplo de que a mono deve permanecer no jornalismo. Você escolheu um bom tema, bons autores, teve uma boa orientação e muito interesse.
E por aí vai. Eu não tinha nem reação, estava estática. Depois ele começou a falar dos milhares de erros (muitos mesmo!), e eu desesperando e anotando tudo, com olhos e ouvidos bem abertos para as sugestões de como, com o mesmo recorte que fiz na mono, partir para o mestrado. E dá-lhe erro para corrigir. Me mandaram sair da sala.
Eu fui correndo para o Labjol, segunda casa. Bruno e Natália estavam lá e eu tentei explicar o que estava acontecendo, até ouvir o Leo me chamar.
Voltei, sentei. O Leo falou assim: "a mono é avaliada em 100 pontos, 50 meus e 50 da banca. Os meus você tem, já que entregou tudo nos prazos etc. E o Nísio achou que os erros que sua mono tem não comprometem em nada a qualidade do trabalho, então, você ficou com cem". Ou alguma coisa assim. Só ouvi as palmas do povo do Impressão. O Leo levantou e eu continuei sentada, perturbada, atordoada, e ele me abraçou mesmo assim. Aí levantei e o Nísio me abraçou. Nem sei o que aconteceu. Ainda peguei carona com eles logo em seguida, e fui resolver minhas coisas da viagem. Na quinta-feira eu estava num estresse só, mas hoje já está tudo encaminhado.
O mais legal é que eu aprendi que tem erro que não faz mal. E que por mais que a gente leia e revise, sempre passa alguma (no caso muita) coisa. Na verdade, mais legal mesmo foi ver que rigor pode ser zelo, carinho. Que corrigir com mão de ferro não é implicância, é ajuda. Que não é coisa de quem não gosta, mas de quem se preocupa. Nísio brilhou na correção cuidadosa e carinhosa, e sou, definitivamente, muito grata a ele. Agora não "apenas" por tudo o que ele me ensinou e por ter me apresentado a Gelsomina e Cabíria em uma única semana...
Voltei para casa, e no caminho comprei um girassol bem grande, pois não conseguia parar de pensar na iluminada Maude que queria ser um girassol (e tive uma deliciosa tarde de ócio). Afinal, de alguma forma aconteceu com o meu dia o que Maude fez com a vida de Harold...
Parênteses: "É difícil defender", como o poeta João Cabral de Melo Neto bem definiu, "só com palavras, a vida". E é sem palavras que Reggio defende as diversas formas de vida contemporânea. (MOURA, 2006, p.68 - huahuahua - monografia faz parte do passado! E dissertação, do futuro!)
Parênteses 2 e epígrafe da mono que explica o título:
"É difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina.
Mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida."
(João Cabral de Melo Neto)
posted by MAÍRA BUENO at 9:40 PM
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Sábado, Outubro 28, 2006
Chico Buarque em Belo Horizonte: EU VOU!!!
Estou contando os dias. Mas também, a que preço? Segue um desabafo...
Estou na porta do Palácio das Artes (é, escrevendo a mão mesmo), desde 10h50. Já são quase 16h. Letícia, minha amiga, está na fila lá dentro, e estou esperando por ela. Ela está aqui desde antes de 8 da manhã. Por quê? Chico Buarque em Belo Horizonte. Quatro dias de show, mais de 6800 ingressos e todo esse frenesi. Claro que entendo, faço parte dele.
Mas presenciei muitas cenas chatas. Gente trazendo avós centenárias para entrar na fila dos idosos, por exemplo. E cada pessoa pode comprar 10 (dez!) ingressos. É um horror, mas fazemos parte dele. Meu ingresso está garantido por causa de uma amiga de minha mãe que chegou aqui no Palácio de madrugada. O da Letícia foi garantido pelo irmão dela, que precisa usar muletas - e mesmo assim ficou mais de quatro horas na fila, como as velhinhas pé na cova. Já teve até desmaio lá dentro.
O pior é o aluguel de grávidas. Passou uma na rua, o povo já pede para entrar na fila, mesmo nunca tendo visto a mulher. Todos os bebês da cidade também já passaram por aqui. Não sei se alugam-se crianças de colo. Mas a grávida custa 50 reais. E nenhuma das filas anda, por mais que o povo chie com esses absurdos.
Cultura em Belo Horizonte é uma coisa complicada. Não é só difícil "fazer" (cinema eu já vi que é praticamente impossível) como também é difícil apreciar. Sejam eventos de graça ou caros como esse. Por mais que eu goste, fica difícil. Hoje só estou aqui porque é o Chico, e Chico é deus. Mas estou num boicote ferrenho. No FIT fui apenas em duas peças (o ingresso para elas foi uma luta, mas os grupos XIX e Espanca! eu não perco por nada), e, no Indie, só em uma cabine para a imprensa. Claro que perco muita coisa. Só que não dá para viver assim. Quero voltar para Nova York.. Depois do show do Chico, é claro!
posted by MAÍRA BUENO at 10:36 AM
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Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Pelo visto hoje é o dia das letras: três críticas (isso que faltam quatro de filmes do Buñuel, mas eu tenho meio medo de escrever sobre ele, apesar de já ter ousado aqui), uma semi-reportagem, alguns emails e recadinhos no orkut e um pedação de monografia (estou tão em dúvida se estou fazendo certo! Ainda bem que tenho orientação amanhã...) Enfim, passei o dia (desde umas 3 da manhã, mais ou menos) quase que inteiro só escrevendo. Não que eu esteja assim inspirada, mas tenho alguns prazos.. E aproveitando que estou frenética, vim atualizar um pouquinho o meu canto. Levaram meu contador embora, vou ter que arrumar outro. Mas hoje não. (Continente!) Tenho que escrever de montagem, agora. É mais difícil do que as coisas que escrevi antes. Aplicar tudo o que li de montagem em Qatsi. Tá. Acho que consigo fazer. Mas acho que está tudo errado!
posted by MAÍRA BUENO at 8:30 PM
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Quinta-feira, Outubro 05, 2006
Antes de te ver
- Não repara que eu esteja te olhando. Você chama muito a atenção.
- ...
- É, seus olhos, seu cabelo, você é uma menina muito bonita.
- Nossa, não poderia ouvir isso em momento melhor.. Estou indo encontrar uma pessoa e estou muito nervosa.
- Não tenha medo. Quando a gente quer muito uma coisa, Deus pode até nos concedê-la, por nossa força de vontade. Mas não é sempre. E quando não acontece, é porque é o melhor que Ele tinha a fazer.
- Tomara. Como a senhora se chama?
- E.... E você?
- M....
- Tenho um presente para você. Você é religiosa, não?
- Sou sim.
- Vi no seu sorriso. É uma medalhinha da Nossa Senhora de Lourdes. Ela é muito abençoada, vai lhe trazer muita proteção.
- ...minha avó se chama Lourdes!
- Olha que coincidência! E eu, que nunca venho aqui pegar esse ônibus, o meu é o 4111, moro lá perto do shopping da Bandeirantes, só vim aqui comprar umas verduras.
- A senhora mora sozinha?
- Agora eu moro, fiquei viúva há um ano.
- Sinto muito...
- Mas meu neto mora no apartamento em cima do meu, casou há pouco tempo. Não me sinto sozinha, minha filha vai muito lá.
- A senhora tem só uma filha?
- Eu tinha também um rapaz, que morreu com 18 anos, de acidente de carro.
- Sinto muito mesmo...
- Mas eu ajudei a criar meus netos, eles me fizeram e fazem muito bem.
- Nossa, avó é tudo de bom!
- ...
- Sabe, eu não tenho mais avós biológicos.. Mas sempre arrumo alguns adotivos, eu preciso deles.
- Quem sabe você não arrumou outra avó? Olha, eu moro na Rua X, número Y, apartamento 301.
- Eu também moro no 301, mas aqui na Z.
- Aparece por lá. Será que você não se esquece? Rua X, número Y, apartamento 301.
- Esqueço não. Deixa eu ir que eu tenho um encontro.
- Não se preocupe. Vai dar tudo certo.
- Muito obrigada mesmo!
- Deus te abençoe!!
- Amém.
posted by MAÍRA BUENO at 1:41 PM
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Quarta-feira, Setembro 27, 2006
Ontem a Auxiliadora (que foi casada com um tio-avô meu) faleceu. Hoje fomos lá na tia Halza (minha tia-avó de verdade, quase mãe do meu pai depois que minha avó morreu... é, minha família é meio confusa), que era a melhor amiga da Auxiliadora. (É estranho. Sinto a morte da Auxiliadora somente agora, que a vi, de certa forma. Não fiquei sabendo de seu velório a tempo. Uma pena, ela era uma pessoa muito boa para todos nós, sempre tão dedicada e calma.) Tia Halza está simplesmente péssima. Foi de partir o coração. Nunca na vida tinha imaginado que justo a tia Halza, que fala pelos cotovelos, ia dizer:
- É, eu não estou conseguindo falar.
E ela está mal fisicamente: vomitou umas três vezes no pouco tempo em que estivemos lá. Fizemos de tudo para trazê-a para casa, mas ela mora sozinha desde sempre, não gosta de sair à noite. Acho que, como diz minha mãe, ela sabe de si.
Tia Halza contou que segunda-feira esteve com Auxiliadora no hospital (tentaram esconder dela que a amiga estava no CTI, mas ela acabou descobrindo). Ela disse que passou a mão no rosto dela e disse:
- Dora, estou ao seu lado como você sempre esteve do meu. Os médicos disseram que você está boa e logo vamos poder fazer uma farrinha.
A tal farrinha, ela explicou, era levar a sobrinha, ainda criança, para comer cachorro-quente e tomar Coca-cola nas Lojas Americanas. Diz também que Auxiliadora tentou se manifestar, mas ela já estava com a saúde muito debilitada...
Ano passado tive que encarar a morte duas vezes, e entendi um pouco, eu acho, do que é amar tanto uma pessoa e só conseguir partir depois que ela se vai - mesmo que todos jurassem que ele era mais fraco do que ela, ele a esperou para morrer. Hoje acho que tive uma lição sobre a amizade. Sobre a amizade como amor incondicional..
Não estou bem. Sinto falta das suas palavras, sempre sábias, nesse momento...
posted by MAÍRA BUENO at 9:06 PM
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Sexta-feira, Setembro 22, 2006
Não tive uma semana muito boa. Perdi um emprego, vacilei em outro, meu time está jogando cada vez pior, estou me sentindo pobre e achando minha monografia muito desconexa e superficial (mas meu orientador disse que é assim mesmo, considerando a complexidade e a amplitude do meu tema e o meu limite de páginas. Ele, aliás, é uma graça, meu professor, chefe, orientador, mestre e guru..)
Mas, mudando de assunto, ou voltando ao assunto, além de ter valido a pena porque a alma não é pequena, também valeu para eu ficar mais alerta. Tem mais gente cretina e mau caráter no mundo do que eu pensava. Confuso, né? Sei lá, nem estou tão triste. Só meio desanimada, baqueada por ter tido uma rotina tão louca, ter me envolvido tanto e depois ter sido demitida da forma mais tosca, estar convicta de ter sido usada e não ter mais tanta coisa para fazer assim.
Alguém tem um emprego aí para me arrumar?
posted by MAÍRA BUENO at 8:35 PM
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Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Estou cheia de dúvidas e de vontades. Quer dizer, são mais vontades que dúvidas. Mas sabe aquele friozinho na barriga? É claro, se eu falar o que é, aposto que não vai ter uma única pessoa que diga: "fique". Nem eu quero ficar mesmo. É só medo de estragar o que parece que, pela primeira vez de verdade mesmo, está dando certo. Mas não sei... Arriscar também é bom.Oh gosh... Sei lá, no final eu sei que vou fazer a coisa certa mesmo... eu acho...
posted by MAÍRA BUENO at 11:33 PM
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Sábado, Julho 29, 2006
Avô, avô, de sangue mesmo, eu nunca tive. Mas dei meu jeitinho e arrumei alguns. Um deles, o Vô Zé, comemorou seus 80 anos ontem, em grande estilo. A festa, animadíssima, foi proclamada por um dos convivas como "a mais bela de todos os tempos". De fato, foi bonita a festa, pá, fiquei contente. (Guardei para mim uma rosa..) Foi mesmo mais bonita do que a viagem para comemorar as bodas desse mesmo avô, que, aos olhos (e com essas palavras) de minha avó, é ainda seu príncipe, mesmo - e especialmente - depois de 55 anos de vida em comum.
Enquanto um pequeno vídeo-documentário-biografia exibia passagens importantes da vida de Zé Môbem, fiquei pensando em como é bom ser mais um dos tantos adotados por essa família, os "mata gato esfola onça". Com direito a aparecer no bolo, decorado com os nomes dos 16 netos. Fiquei pensando, ouvindo, vendo a história de uma família que eu adoro muito. Chorando também, claro. Mais ainda ao perceber que o que importa em uma família não é a quantidade de membros (e os Mendonça têm muitos!), mas é a união e o espírito fraterno - que eles/nós também têm/temos demais. Só que nisso, apesar dos problemas e desencontros, que todo mundo tem, os Bueno e os Moura não perdem. E eu sou muito, muito feliz e grata por fazer parte de três famílias, que, cada uma a seu modo, são tão lindas.
posted by MAÍRA BUENO at 11:03 AM
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Quinta-feira, Julho 20, 2006
Na praia. Meaípe. Quem diria... eu, que tenho birra do Espírito Santo, estou curtindo bastante. Não tem quase ninguém na cidade - não poderia ser mais perfeito para mim. Fico aqui com meus livros e minha família, morrendo de saudades dos meus bichos, em especial da Mônica, mas firme na resolução de que dessa vez eu não vou arder! Não sei quando volto.. Acho que vou perder a final do Project Runway, ô inferno... E não estou conseguindo acessar o orkut, não respondi nenhum email direito. Ai, que preguiça. Falando nisso li uma crônica ótima do Sabino ontem sobre a preguiça, enquanto virtude, e não pecado... Preguiça é esse computador. Com certeza as pessoas vão me perdoar os emails mal respondidos (se respondidos, claro). Mas deixa de falar besteira. Volto, em Belo Horizonte. Ou não. Acreditem ou não, mas eu amo esse blog, apesar do ligeiro abandono. Beijo em quem é de beijo.
posted by MAÍRA BUENO at 4:34 PM
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Sábado, Junho 03, 2006
As cidades e as trocas 3
Ao entrar no território que tem Eutrópia como capital, o viajante não vê uma mas muitas cidades, todas do mesmo tamanho e não dessemelhantes entre si, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia não é apenas uma dessas cidades mas todas juntas, somente uma é habitada, as outras são desertas; e isso se dá por turnos. Explico de que maneira. No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem acometidos pelo tédio e ninguém mais suporta o próprio trabalho, os parentes, a casa e a rua, os débitos, s pessoas que devem cumprimentar ou que os cumprimentam, nesse momento todos os cidadãos decidem deslocar-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como se fosse nova, onde cada um escolherá um outro trabalho, uma outra mulher, verá outras paisagens ao abrir as janelas, passará noites com outros passatempos amizades impropérios. Assim as suas vidas se renovam de mudança em mudança, através de cidades que pela exposição ou pela pendência ou pelos cursos de água ou pelos ventos apresentam-se com alguma diferença entre si. Uma vez que a sua sociedade é organizada sem grandes diferenças de riqueza ou de autoridade, as passagens de uma função para a outra ocorrem quase sem atritos; a variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, tantas que no espaço de uma vida raramente retornam para um trabalho que já lhes pertenceu.
Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio. Os habitantes voltam a recitar as mesmas cenas com atores diferentes, contam as mesmas anedotas com diferentes combinações de palavras; escancaram as bocas alternadamente com bocejos iguais. Única entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si mesma. Mercúrio, deus dos volúveis, patrono da cidade, cumpriu esse ambíguo milagre.
Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis
posted by MAÍRA BUENO at 9:37 PM
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Sexta-feira, Maio 05, 2006
Em um confuso sonho no qual predominaram preocupações acadêmicas, ele apareceu. Não é tão raro assim vê-lo, e já que dizem que a alma passeia fora do corpo durante a noite, por que não acreditar que ele foi me visitar? Dessa visita restaram apenas quatro pequeninas palavras, soltas como seu belo rosto enevoado e a tão familiar voz ecoando: você gosta de mim? Acordei sobressaltada. Talvez ele simplesmente não tenha percebido o que considero óbvio. Me peguei avaliando o doce cinismo - uma parte assustadora da minha personalidade, confesso - com o qual tenho tratado-o nos últimos tempos. Talvez ele simplesmente não saiba! E talvez eu não esteja sendo justa. Mas o caixão foi fechado e sobre ele já foram lançadas uma pá de cal e uma braçada de crisântemos. E agora?
posted by MAÍRA BUENO at 7:53 AM
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Quinta-feira, Março 30, 2006
Tem gente que não bebe e está morrendo - MBM
Antes que a cronista seja taxada de alcoólatra (problema comum entre jornalistas, devo reconhecer), é importante ressaltar que (ainda) não estou falando de bebidas alcoólicas, mas sim de café (outro vício dos jornalistas, que ninguém esconde, aliás). Pesquisas recentes apontaram que - surpresa! - o consumo regular de café, pelo menos quatro xícaras por dia, ajuda no combate a doenças hepáticas, incluindo a cirrose e o hepatocarcinoma (a forma mais freqüente de câncer de fígado). O café, acreditam os pesquisadores, possui moléculas protetoras, antioxidantes, como o magnésio e o ácido clorogênico. Essas moléculas, e outras ainda não descobertas, seriam responsáveis pela destruição de enzimas indicadoras de cirrose, como a gama-glutamil-transpeptidase (GGT, para simplificar) e da alanina transaminase (ALT), que mede os danos hepáticos.
Os pesquisadores dizem, ainda, que entre os consumidores de álcool, os que enchem a cara (também) de café têm risco cinco vezes menor de desenvolver uma doença do fígado do que aqueles que só ficam bêbados com cachaça & cia. E, se por acaso os bebedores de café tiverem uma cirrose, o risco de morte pela doença é reduzido em 30%!
Se tinha gente que ficava preocupado com o fígado quando ia tomar uma "cerva", veja que maravilha as descobertas da ciência nos trazem. E se a cafeína costuma tirar o seu sono, é só beber um cálice bem bom de vinho, que é para ficar mais manso e não ter problemas de insônia.
Espalhe para os seu amigos! Que tal chamá-los para ver o clássico Cruzeiro e Atlético em um boteco no domingo? E sem refrigerante diet! Dessa vez, peça um café expresso (deve ter mais cafeína e valer por mais café) para forrar o seu estômago, ou ainda, o seu fígado! Depois é só comemorar o gol do seu time. Ou afogar as mágoas se ele perder.
E, falando em afogar as mágoas, essa nova descoberta é um achado para os corações partidos de plantão. Se ela foi embora ou ele fugiu com duas de vinte, certamente será mais fácil superar a dor com esse aval científico. É bem verdade que os pesquisadores alegaram, nesse mesmo estudo, que o excesso de café causa taquicardia. Mas com o coração murchinho dos abandonados, é até bom dar uma animadinha...
Portanto, caro leitor, pode ir tranqüilo fazer o seu happy hour hoje. Mas não se esqueça de tomar o seu cafezinho - quatro xícaras, combinado? E, quem sabe, depois possamos cantar, com diversas interpretações, eu beeebo sssiiiim! E essstou vivendo! Tem geeente que não bebeeestámorreeeeendo! Eu beeeeebooo sssiiiiiim! (Mas café, tá?)
posted by MAÍRA BUENO at 10:25 AM
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Segunda-feira, Janeiro 09, 2006
Às vezes eu tenho saudade, e às vezes tenho raiva, muita raiva. Às vezes acho que não vai dar certo nunca, às vezes acho que pode dar certo algum dia, quem sabe, talvez. Às vezes curto muito a casa nova, outras vezes quero ir embora nem sei pra onde. Às vezes quero evitar as pessoas, outras vezes preciso delas, física, química e emocionalmente. Às vezes acho os altos e baixos naturais, às vezes acho que eles vão acabar comigo. Às vezes acho que eu só queria alguém... diferente. E que mesmo que seja diferente eu sei como é. É estranho. Deixa. É um grito surdo mesmo. E voltamos ao ponto inicial. Cada vez mais parecida com Sísifo. E como dói!
posted by MAÍRA BUENO at 12:03 AM
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Sexta-feira, Dezembro 09, 2005
A Humanidade é Vermelha: Fraternidade e sensibilidade em Kieslowski - MBM
A Fraternidade é Vermelha (Rouge) é o fim da Trilogia das Cores, do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, e também o último trabalho por ele realizado. A trilogia tem o propósito de narrar, imageticamente, os ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade, alinhados com as cores da bandeira da França. Ainda que os três filmes possuam fábulas autônomas, é em Rouge que a trilogia pode ser vista em uma unidade, obrigando o espectador a repensar A Liberdade é Azul (Bleu) e A Igualdade é Branca (Blanc).
Rouge é um filme pontuado pelas coincidências e pelo acaso, narrando a estranha amizade nascida entre a modelo Valentine e o juiz aposentado Joseph. A moça atropela a cadela de Joseph, Rita, e vai até sua casa para devolver o animal. Por causa de Rita, Valentine e o juiz ficam amigos, e a modelo descobre que o juiz gasta todo o seu tempo escutando conversas telefônicas de seus vizinhos, "em busca da verdade", que ele acredita nunca ter conseguido alcançar nos tribunais. Paralelamente, é narrada a história de um jovem juiz, Auguste, e sua namorada, Karin. Auguste passa, ao longo do filme, por situações idênticas às vividas por Joseph durante sua juventude, contadas por ele próprio a Valentine.
Cada personagem tem sua função específica no filme: Joseph é o passado repleto de erros, o presente amargurado e a falta de perspectiva para o futuro; Auguste representa a coexistência do passado e do presente de Joseph, mas com a possibilidade de criar um futuro diferente; Karin é a representação de um dos elementos que tornaram Joseph o que é; e Valentine surge como a variável da história, a única coisa capaz de diferenciar o passado de Joseph do futuro de Auguste.
Ao longo do filme, os personagens ficam quase sempre próximos, por obra do acaso. Ainda assim eles não se encontram, deixando o espectador, de certa forma, angustiado com essa relação incompleta e misteriosa. Na verdade, a única pessoa que tem consciência do passado, do presente e de suas semelhanças é o ex-juiz Joseph que, partindo disso, é como um narrador do filme. E, nessa condição, capaz de moldar o destino daqueles que estão à sua volta - ou pelo menos é ele quem induz o espectador a tirar determinadas conclusões sobre as três outras personagens.
Kieslowski cria, em Rouge, uma relação de cumplicidade com o espectador. Nenhuma das personagens possui todas as informações que o espectador tem, de forma que este monta uma colcha de retalhos com tudo que é mostrado no filme, seja através das palavras, seja através das imagens. O papel do espectador é fundamental em Rouge, ouso dizer que até mais do que em Bleu e Blanc, pois é ele, com o auxílio de Joseph, que dá sentido à história e é capaz de unir a vida daquelas quatro pessoas. Assim, o discurso de Kieslowski não é fechado. Pelo contrário, permite que os diversos espectadores façam diferentes leituras diante do filme, moldando até mesmo a história - e o seu desfecho - de acordo com o que pensa ou com o que sentiu. Essa cumplicidade com o espectador pode não ocorrer com muita freqüência (ou com tanta eficácia) na primeira leitura, mas é quase certa em uma segunda - pois é esta quem permite a visualização de elementos mais profundos na obra, tanto na história quanto na forma.
No que diz respeito ao enredo do filme, acredito não haver uma história capaz de se encaixar melhor a este título, A Fraternidade é Vermelha, do que a contada por Kieslowski. O filme é mais do que, qualquer um dos outros dois, sobre como os diversos tipos de sofrimento humano, a incompreensão e a falta de comunicação podem trazer dor e como a vida é imprevisível. A partir disso, Rouge é construído, culminando no conceito de fraternidade, como sendo a única capaz de mudar toda essa dor e esse sofrimento.
As imagens de Rouge são de uma beleza rara. Aqui, a cor do título é utilizada em momentos diferentes, ao contrário de A Liberdade é Azul (onde a cor é utilizada para mostrar a dor da personagem) e de A Igualdade é Branca (em que o branco aparece em sonhos e lembranças das personagens). Em A Fraternidade é Vermelha, a cor desvincula-se da representação da subjetividade e do drama da personagem, alternando-se de acordo com o estado de Valentine - em um determinado momento, representa a saudade, em outros desencontro, encontro e mesmo renascimento.
A música em Rouge também apresenta particularidades quando comparada aos outros filmes. Como na fotografia, a música de Bleu e de Blanc é mais utilizada para representar a subjetividade das personagens. Já em Rouge, a música aparece, principalmente, como música ambiente. A letra de Amor à primeira vista, presente no filme, é justamente sobre pessoas que nunca se viram, apesar de estarem sempre próximas.
A Trilogia das Cores, como um todo, revela a sensibilidade de Krzysztof Kieslowski quanto à fragilidade humana. No entanto, deixa transparecer o seu amor pela humanidade e sua crença nela, chegando a seu ponto máximo no desfecho, em A Fraternidade é Vermelha.
Ficha Técnica
A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge - França/ Polônia/ Suíça - 1994)
Duração: 99 minutos
Direção: Krzysztof Kieslowski
Produção: Marin Karmitz e Gerard Ruey
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz e Krzysztof Kieslowski
Direção de fotografia: Piotr Sobocinski
Montagem: Jacques Witta
Música: Zbigniew Preisner
Direção de som: Jean-Claude Laureux
Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Federique Feder, Jean-Pierre Lorit.
posted by MAÍRA BUENO at 6:26 PM
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Segunda-feira, Novembro 07, 2005
Como se moesse almas - MBM
Como se moesse ferro, livro de estréia do gaúcho Altair Martins, surpreende por narrar um apanhado de várias formas de viver o amor - que pode se apresentar de diferentes modos, mas que na verdade é sempre o mesmo: vivo, intenso, destrutivo. É através do amor que o autor mostra toda a fragilidade do ser humano, tornando estranho o que há de mais corriqueiro no cotidiano de um casal. Com pitadas de surrealismo, doses de crueldade, metáforas bem construídas e um delicioso jogo de palavras, Altair Martins escreve um livro que, além de ser sobre o amor, é uma explosão desse mesmo amor.
Com influências de Clarice Lispector e, possivelmente, Dalton Trevisan, Martins cria um mundo que é, em parte, uma mistura dos dois autores: da nordestina, ele colhe e explora a psicologia dos personagens, mostrando-os por todos os lados e com todos os sentimentos, mesmo os mais conflitantes; e do paranaense, seleciona as securas da vida e a dureza do amor. Entretanto, Como se moesse ferro é mais do que uma simples fusão de Lispector e Trevisan. Altair Martins inova e dá vida a seus contos através da repetição de palavras - ou mesmo de parágrafos inteiros - e cria neologismos que fazem de sua obra ainda mais viva, como ao descrever o ar da ferraria do primeiro conto, "ferrefeito". Não obstante, ainda que os temas de seus textos se aproximem dos contos de Guerra Conjugal, de Trevisan, Altair Martins descreve muito mais do que problemas domésticos, enfatizando a relação com o outro e mostrando como quem ama depende do objeto amado.
Através de metáforas fantásticas, o autor consegue se fazer entender pelas entrelinhas, talvez com mais eficácia do que se tivesse priorizado a descrição da vida como ela realmente é. Altair Martins mostra que a vida nunca é realmente, que nunca é apenas uma coisa hermética, mas que tem interpretações, olhares e funções: o amor que devasta, em especial no primeiro conto, Como se moesse ferro, e no último, Humano, é o mesmo que constrói e que torna a vida plausível - e vivível.
Explodindo e dilacerando as personagens com um amor que destrói e que, a partir da destruição, constrói, Martins desnuda almas, como se as moesse. Ele explora o humano em cada ínfima parte de seu ser, tornando maleável e em parte compreensível tamanha dureza, tamanha secura. A metáfora que dá título ao livro mostra que o núcleo de todos os contos, as relações humanas, podem ser duras, frias, inquebrantáveis. Mas que também podem ser moídas e, portanto, tornar-se maleáveis.
posted by MAÍRA BUENO at 4:57 PM
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Quarta-feira, Outubro 19, 2005
Tem alguma coisa errada com o mundo.
Claro, isso é óbvio. Mas outro dia mesmo eu estava aqui, escrevendo sobre uma (quase) inédita chuva de granizo tão forte e que quebrou tantos vidros da minha casa que parecia que eu morava em um prédio abandonado. Outro dia escrevi a um amigo que minhas mãos estavam geladas e que doía escrever. E hoje não consigo dormir por causa do calor infernal. Só me lembro de ter vivido isso em férias, tipo na praia, em Nova York ou em algum lugar do Vale do Jequitinhonha. Mas não em BH, onde os dias são agradáveis, as noites são frescas e a brisa cheira a dama-da-noite. Era assim quando eu era mais nova, e olha que nem sou tão velha. Moro em um bairro particularmente frio na cidade, desde antes de nascer. Nunca, nesses 20 anos, tinha dormido com a janela completamente aberta. Esses dias tenho dormido muito mal e não há mais nenhuma janela nem um pouco fechada que seja. E pode até soar ingênuo, ou mesmo imbecil. Mas isso me faz refletir, mais uma vez, sobre colocar ou não filhos nesse mundo que está tão maluco e tão mais errado a cada dia. E nesse momento, de uma raiva mole e quente, não há literatura nenhuma, nem a mais lírica ou suave, que me faça achar que tem alguma coisa no mundo que ainda preste. Total out of balance...
posted by MAÍRA BUENO at 12:38 AM
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Domingo, Outubro 09, 2005
O Desaparecido
Rubem Braga
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, hoje eu não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
posted by MAÍRA BUENO at 4:38 PM
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Quinta-feira, Setembro 08, 2005
Caiu tanto granizo, tantas bolinhas de naftalina, que vidros se estilhaçaram, hematomas surgiram e o chão ficou imaculadamente branco. E minha casa deixou de parecer Macondo somente das portas e janelas para dentro para tornar-se Macondo também em seu exterior. No dia seguinte, o espesso tapete de folhas verdes mostrava que o outono retornara antes mesmo da chegada da primavera, e nos lembrava de que não tínhamos nenhum rei para enterrar...
posted by MAÍRA BUENO at 7:30 PM
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Sábado, Setembro 03, 2005
Kalanchoes rosas vermelhas laranjas amarelas, crisântemos roxos amarelos, azaléias brancas, rosas cor de rosa em miniatura. Algumas delas no meu quarto. É... a vida tem seus lados bons coloridos bonitos alegres e cheirosos. Ainda em busca das begônias perfeitas...
posted by MAÍRA BUENO at 6:38 PM
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Terça-feira, Agosto 30, 2005
Outro dia assisti a uma peça LINDA, Por Elise, do Grupo Espanca, daqui de Belo Horizonte. A peça mexeu muito comigo, e saí de lá com a certeza, ou melhor, com a vontade de ter tanta certeza, de que "sou forte como cavalo novo com fogo nas patas, correndo em direção ao mar." Hoje, e ontem, e não sei amanhã, ninguém nunca sabe nem do minuto seguinte, mas hoje eu estou sentindo que o mar, ou que a maresia, está apagando o fogo das minhas patas. Levei três punhaladas hoje, que doeram, mas que eu acredito que serão edificantes. Só queria contar para alguém, mas me sinto tão só. E isso também dói muito, está doendo. Doendo muito.
posted by MAÍRA BUENO at 9:57 PM
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